“As tarifas universais anunciadas pelo presidente Trump são um duro golpe na economia mundial”. Úrsula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, resumiu com essa frase o sentimento de líderes políticos, atores do setor privado e acionistas ao redor do mundo, diante da farta lista de tarifas divulgadas pelo presidente dos Estados Unidos na quarta-feira 2.
Receber com receio a artilharia trumpista na guerra comercial é uma reação natural em tempos nos quais o sistema multilateral de comércio, erguido e liderado pelos Estados Unidos por décadas, parece uma caricatura do que um dia já foi.
A política comercial de Trump gera mais dúvidas que certezas, o que se reflete diretamente no mercado. Não por acaso, as bolsas operam em firme queda no mundo nesta quinta-feira 3, e diversos governos – incluindo o do Brasil – buscam entender se a melhor estratégia é insistir nas negociações com os EUA ou partir para um confronto mais aberto.
No Brasil, o Congresso Nacional deu um raro exemplo de unidade entre governo e oposição, aprovando um projeto de lei que prepara as armas tarifárias brasileiras para uma eventual resposta — o texto recebeu a alcunha de PL da Reciprocidade.
O presidente Lula (PT) já flertou com o desejo de reagir ao governo Trump, ao mesmo tempo em que reconheceu que pode conversar. De líderes sul-americanos a europeus e asiáticos, todos sabem que uma eventual retaliação, se for isolada, tende a escalar o conflito comercial.
Por ora, o Itamaraty se mantém em compasso de espera. Interlocutores da pasta relataram a CartaCapital que o momento é de estudar as medidas dos EUA e seus impactos, sem se precipitar em qualquer anúncio. Agora conscientes de que o Brasil sofrerá com uma tarifa de 10%, representantes brasileiros devem se reunir com agentes do comércio norte-americano na semana que vem, indicando que a janela para o diálogo segue aberta.
Mundo se prepara
Atores de peso do comércio global, como a União Europeia, articulam uma resposta a Trump. O bloco já confirmou que prepara um pacote de medidas para atenuar os efeitos da tarifa de 20%, mas sinaliza que deseja seguir em conversas.
“Parece não haver ordem na desordem. Nenhum caminho claro através da complexidade e do caos que está sendo criado à medida que todos os parceiros comerciais dos EUA são atingidos”, explicou Von der Leyen.
O primeiro pacote de contramedidas será uma resposta às tarifas de Trump à importação do aço, que já estão em vigor. Segundo estimativas da UE, o pacote deverá envolver taxações sobre produtos norte-americanos que podem alcançar 26 bilhões de euros (157,3 bilhões de reais).
Tremor no comércio global
O que Trump impõe desde que voltou à Casa Branca — e que agora se intensifica — é “um movimento de desglobalização do mundo”, segundo o economista Samuel Pessôa, professor da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas.
À primeira vista, Trump busca retomar práticas utilizadas pelos EUA no início do século passado, criando barreiras para que produtores de fora vendam para Washington. Essa é uma aposta no fortalecimento da indústria local — não por acaso, na cerimônia de quarta-feira o republicano chamou um trabalhador industrial ao palanque.
Internamente, porém, os custos podem ser altos para os Estados Unidos, inclusive com uma onda de inflação.
Para Pessôa, no primeiro momento, “tudo o que for importado vai ficar mais caro”. O tempo, por sua vez, mostrará a intensidade dos efeitos.
“O ajuste é duplo: o preço do importado sobe, mas o ofertante que exporta para os EUA pode arcar um pouco com o custo, passando a vender a um preço menor, reduzindo a sua rentabilidade. Enquanto isso, já que a taxação foi contra todo o mundo, o câmbio americano poderá ficar mais forte, o que poderia absorver os efeitos da inflação.”