
A União Europeia prometeu, nesta terça-feira 20, dar uma resposta “firme” às ameaças do presidente norte-americano, Donald Trump, sobre a Groenlândia, antes de uma reunião em Davos acerca do futuro deste território autônomo da Dinamarca no Ártico.
Desde que retornou à Casa Branca, há exatamente um ano, Trump argumenta que “precisa” desta ilha rica em minerais e terras raras por motivos de segurança nacional e para evitar que Rússia e China imponham sua hegemonia no Ártico.
Oito países europeus manifestaram sua firme oposição a este plano expansionista e enviaram uma missão militar de exploração à ilha na semana passada. Todos são integrantes da Otan, entre eles Reino Unido, Alemanha e França, as principais economias do continente.
Trump reagiu, ameaçando-os com tarifas caso se oponham ao seu plano.
Em seu discurso no Fórum Econômico Mundial, na estação de esqui suíça de Davos, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, alertou que Trump poderia acabar mergulhando as relações entre a União Europeia e os Estados Unidos em uma “espiral descendente”.
“As tarifas propostas são um erro, especialmente entre aliados de longa data”, disse Von der Leyen.
“Entrar em uma espiral descendente só ajudará os adversários que ambos estamos determinados a manter fora do cenário estratégico. Portanto, nossa resposta será firme, unida e proporcional”, observou ela.
O presidente francês, Emmanuel Macron, que também está em Davos, instou a UE a “usar” suas ferramentas comerciais para responder e acusou os Estados Unidos de quererem “enfraquecer e subordinar a Europa”.
Embora Macron tivesse proposto a Trump realizar uma cúpula do G7 na próxima quinta-feira, em Paris, o presidente francês disse depois que o evento não está agendado.
Em meio às tensões, o Parlamento Europeu decidiu suspender o processo de ratificação do acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos, segundo confirmaram seus principais grupos políticos nesta terça-feira.
“Não queremos ser invadidos!”
Como parte de sua campanha para tomar a Groenlândia, Trump publicou uma fotomontagem de si mesmo em sua plataforma Truth Social em que aparece fincando uma bandeira em uma paisagem rochosa e gelada ao lado de uma placa que diz: “Groenlândia – Território dos Estados Unidos. Est. 2026”.
Em Nuuk, capital da Groenlândia, Jens Kjedsen protesta sozinho diariamente contra os planos de Trump de tomar o território.
“Não queremos ser invadidos!”, insistiu, nesta terça, o homem, um ex-magistrado de 70 anos, que agora trabalha com carpintaria.
Trump fará um discurso na quarta-feira em Davos e participará de outros eventos na quinta-feira.
O ex-chefe da Otan Anders Fogh Rasmussen afirmou, em entrevista à AFP, que estas ameaças são “uma crise para a comunidade transatlântica em geral e um desafio para a ordem mundial tal como a conhecemos desde a Segunda Guerra Mundial”.
“Temos de conseguir”
Trump afirmou, na segunda-feira, não acreditar que os líderes europeus “ofereceriam muita resistência” ao seu desejo de comprar a vasta ilha ártica, e disse a repórteres: “Temos de conseguir”.
Os líderes da UE se reunirão em Bruxelas na quinta-feira para decidir como responder à crise, uma das mais graves para as relações transatlânticas em anos.
As relações entre Trump e Macron ficaram ainda mais tensas na segunda-feira, quando o presidente norte-americano ameaçou impor tarifas de 200% sobre o vinho e o champanhe franceses, depois que a França insinuou que não participaria do seu “Conselho de Paz”.
Analistas comparam esse conselho, criado para resolver conflitos internacionais, a uma versão do Conselho de Segurança da ONU na qual os países-membros têm que pagar para participar.
Trump confirmou, na segunda-feira, que o presidente russo, Vladimir Putin, está entre os líderes convidados.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, também foi convidado, mas disse que para ele era “muito difícil imaginar” participar deste organismo ao lado de Putin.
O governo britânico se disse “preocupado” com este convite, qualificando Putin como um “agressor em uma guerra ilegal contra a Ucrânia”.
Zelensky também disse, nesta terça-feira, que está “preocupado” de que o tema da Groenlândia desvie a atenção internacional do conflito em seu país quase quatro anos após o início da invasão russa.
China critica a “lei da selva”
O vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, cujo país esteve envolvido em uma guerra comercial com o governo Trump, também discursou em Davos nesta terça-feira.
“Uns poucos países seletos não deveriam ter privilégios baseados em seus próprios interesses, e o mundo não pode retornar à lei da selva, onde os fortes se aproveitam dos fracos”, disse He, sem mencionar nenhum país específico.
