O agronegócio, que representou 29,4% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre e por décadas cresceu conquistando mercados lá fora, agora se defronta justamente com uma ameaça externa.
O tarifaço imposto por Donald Trump, a possibilidade de uma aplicação mais forte da Lei Magnitsky e o risco de outras sanções dos Estados Unidos sobre o Brasil devem intensificar a crise que já vinha afetando parte do setor antes mesmo da posse do presidente americano.
A atividade, vale dizer, cresceu 6,9% no primeiro trimestre, na comparação com igual período do ano passado, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP — mais que o dobro do crescimento da economia toda.
Porém, o bom resultado conjunto não significa que o setor todo está bem de saúde. Um grupo crescente de empresas já não consegue pagar suas dívidas, levando a sucessivos recordes no número de empresas em recuperação judicial.
VEJA TAMBÉM:
-
Agro é o setor mais prejudicado pelo tarifaço de Trump
Inadimplência e recuperação judicial disparam no agronegócio
Um dos principais termômetros dos problemas financeiros no agronegócio, especialmente “dentro da porteira”, é o aumento na taxa de inadimplência. Segundo números do Banco Central, o índice cresceu pelo quarto mês seguido em julho, atingindo 4,4%. É uma alta de 2,5 pontos percentuais em relação ao mesmo mês de 2024, quando a taxa se encontrava em 1,9%.
A perspectiva, de acordo com a Genial Investimentos, é que essa situação persista nos próximos meses, mantendo a qualidade da carteira de crédito rural como um ponto de atenção. Essa tendência acende um alerta para as instituições mais expostas ao setor, tornando o cenário especialmente desafiador para o Banco do Brasil, que possui cerca de um terço de sua carteira (aproximadamente R$ 405 bilhões) alocada no agronegócio.
VEJA TAMBÉM:
-
Novas sanções agravam “combinação letal” que já causa quebradeira recorde no país
-
Está ruim e vai piorar: inadimplência recorde ganha reforço com tarifaço dos EUA
A corretora aponta que a alta na inadimplência foi acelerada pela piora no ciclo agrícola, em especial nas lavouras de soja e milho no Centro-Oeste. Na região, a combinação entre a queda nos preços das commodities e o endividamento excessivo de alguns produtores elevou as dificuldades financeiras do setor.
Um levantamento da RGF Associados, consultoria especializada em reestruturação corporativa, mostra que apenas no campo (“dentro da porteira”) houve crescimento de 13,8% no número de empresas e produtores rurais em recuperação judicial entre o primeiro e o segundo trimestre.
Outra pesquisa, da Serasa Experian, mostra que os problemas não se restringem apenas aos produtores rurais, mas também atingem empresas da cadeia produtiva (“fora da porteira”). Os pedidos de recuperação judicial nos dois lados da porteira saltaram 22,6% no primeiro trimestre de 2025, comparativamente ao mesmo período do ano passado.
A maior parte dos pedidos veio de produtores pessoa física, especialmente arrendatários, que operam com margens mais estreitas e enfrentam maiores dificuldades de acesso a garantias. Entre as empresas da cadeia, os fabricantes de açúcar lideram o ranking de dificuldades, com 181,4 recuperações judiciais a cada mil empresas ativas, seguidos pelos processadores de arroz (117,6 por mil) e produtores de álcool (74,3 por mil).
“O cenário ficou mais duro: além do crédito restrito e das altas taxas de juros, a instabilidade global aumentou”, analisa Rodrigo Gallegos, sócio da RGF Associados.
Na média, são 11,5 recuperações para cada mil produtores e empresas “dentro da porteira”, quase seis vezes superior à média da economia brasileira. Por segmento, os produtores de soja lideram o ranking das dificuldades, com 21,5 recuperações judiciais a cada mil, seguidos por cana-de-açúcar (20,9 por mil) e milho (16,8 por mil).
Geograficamente, Santa Catarina apresenta a situação mais crítica (33,5 por mil), seguida pelo Rio Grande do Sul (31,5 por mil) e Goiás (21,1 por mil).
A soma de fatores que levou o agro à “tempestade perfeita”
As causas da crise no agronegócio são multifacetadas. O sócio da RGF aponta crédito restrito, altas taxas de juros e instabilidade global como fatores cruciais para o problema. Luiz Felipe Baggio, consultor jurídico da consultoria Evoinc, destaca que o produtor rural brasileiro opera, em grande parte, alavancado.
“As altas taxas de juros reais, mesmo para aqueles com acesso a condições razoáveis de crédito, geram uma pressão financeira considerável”, explica. A situação se agrava com a elevação das taxas no Plano Safra 2025/26.
Vanderlei Garcia Jr., especialista em Direito Contratual e Societário e sócio do Ferreira & Garcia Advogados, aponta outros fatores: queda nos preços internacionais de commodities, valorização do real frente ao dólar, aumento dos custos de insumos e combustíveis, além das instabilidades climáticas.
VEJA TAMBÉM:
-
Prisão de Bolsonaro pode gerar novas sanções dos EUA e ampliar risco de crise econômica
Tarifaço dos EUA: golpe na competitividade do agronegócio
A imposição de tarifa adicional de 40% (além dos 10% aplicados meses antes) sobre a maioria das importações brasileiras pelos Estados Unidos, vigente desde o dia 6, representa um choque comercial. A medida afeta diretamente os principais produtos das cadeias agroindustriais brasileiras.
Rodrigo Linhares Orlandini, especialista em Direito Civil do Martinelli Advogados, explica que a nova carga tarifária altera abruptamente a base econômica de negócios construídos com margens apertadas, afetando contratos com cláusulas de entrega futura, preços fixados em moeda estrangeira e obrigações vinculadas a volumes mínimos e cronogramas logísticos.
Do ponto de vista jurídico, trata-se de um “fato superveniente de caráter excepcional e imprevisível”, o que pode justificar pedidos de revisão contratual baseados na teoria da onerosidade excessiva — conceito que permite a renegociação quando mudanças externas tornam o cumprimento do contrato excessivamente oneroso para uma das partes.
“A ausência de cláusulas contratuais específicas para alterações unilaterais de tributos por países importadores amplifica a insegurança jurídica e o risco de litígios”, adverte Orlandini.
Na prática, o tarifaço pegou muitas empresas de surpresa, sem tempo hábil para reestruturação de custos e receitas. Segundo Gonzaga, a expectativa é de mais recuperações judiciais, especialmente entre empresas que tinham os EUA como grande consumidor, com impacto direto no fluxo de caixa.
VEJA TAMBÉM:
-
Da semente ao porto: como a China se “infiltrou” na cadeia produtiva do agro brasileiro
-
Trump vai ampliar sanções caso Brasil se aproxime mais da China, diz pesquisador
Lei Magnitsky: a outra ameaça que paira sobre o setor
Paralelamente, outra ameaça paira sobre o agronegócio brasileiro: a possível aplicação da Lei Magnitsky a instituições financeiras do país. Este instrumento de sanções econômicas dos EUA, tradicionalmente aplicado em casos de corrupção e violação de direitos humanos, criaria um dilema sem precedentes para o sistema financeiro nacional e afetaria diretamente o agronegócio.
No momento, a única autoridade enquadrada na Magnitsky é o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Mas a legislação pode ser estendida a outros agentes públicos.
Bancos brasileiros com operações nos Estados Unidos seriam penalizados por manter relações comerciais com sancionados. Por outro lado, no Brasil, enfrentariam o risco de ser punidos pelo STF, que já indicou que não tolerará que instituições financeiras cortem contatos com autoridades – a começar por Moraes – sob pretexto de cumprir a lei americana.
VEJA TAMBÉM:
-
Sugestão de banqueiros a ministros do STF não é solução para escapar da Magnitsky
As instituições financeiras desempenham papel crucial no fornecimento de cartas de crédito para exportação do agronegócio, financiamento de safras e seguros agrícolas. Se o sistema financeiro fosse paralisado por sanções internacionais, empresas já fragilizadas perderiam a última linha de suporte financeiro.
A especialista da RGF enfatiza que movimentos políticos desse tipo geram incerteza e levam as instituições financeiras a serem mais cautelosas, resultando em crédito mais restrito e taxas menos favoráveis. “Particularmente em um setor já pressionado por dívidas antigas, a falta de ‘dinheiro novo’ para renegociar se traduziria em maior volume de recuperações judiciais e falências”, avalia.
Quais as atividades do agronegócio mais afetadas pelas novas barreiras
Carne bovina: exportações para os EUA se tornam inviáveis
A indústria da carne é um dos segmentos mais prejudicados, com as exportações para os EUA “praticamente inviabilizadas” devido a uma tarifa total de 76,4% (50% da nova tarifa somada aos 26,4% já existentes para a extracotas). Os EUA são o segundo maior importador global, e o Brasil teve crescimento de 132% nas exportações de carne in natura para lá no primeiro semestre de 2025.
A consequência imediata é o redirecionamento da produção para outros mercados, como China, outros países da Ásia e Oriente Médio, além do mercado interno, o que pode pressionar as margens de lucro e causar uma queda pontual nos preços.
Grandes frigoríficos como JBS e Marfrig, embora expostos, têm plataformas globais que permitem maior resiliência e redirecionamento de produção. A Minerva Foods também se beneficia de sua presença internacional, podendo usar suas plantas em outros países sul-americanos para atender o mercado americano.
Os criadores de bovinos enfrentam cenário mais delicado: o número de produtores em recuperação saltou de 6,24 por mil em 2023 para 9,6 por mil no segundo trimestre de 2025.
Café: americanos teriam dificuldade para substituir produto brasileiro
O Brasil é o maior produtor mundial de café arábica e o segundo de robusta, e os EUA são o maior consumidor global. A tarifa de 50% afeta fortemente a competitividade do café brasileiro.
Sua substituição, porém, não será simples para o mercado americano e terá impacto inflacionário para o consumidor. O Itaú BBA observa que o café brasileiro ficou fora da lista de produtos isentos, mesmo com a dependência dos EUA e o cenário apertado de oferta de arábica.
Cana-de-açúcar: setor já fragilizado enfrenta mais incertezas
O setor já registrava fragilidade financeira antes do tarifaço. No segundo trimestre, 20,9 em cada mil produtores estavam em recuperação judicial. A situação é crítica na fabricação de açúcar bruto, onde 39 das 215 empresas aderiram ao mecanismo (181,4 por mil) — a segunda atividade industrial com maior proporção de empresas em recuperação judicial.
As novas tarifas podem inviabilizar exportações de açúcar para os EUA, forçando redirecionamento para mercados asiáticos e do Oriente Médio, onde a concorrência é maior e os preços, menores. A Jalles Machado, uma das maiores exportadoras, prevê impacto de R$ 20 milhões a 25 milhões no fluxo de caixa e planeja redirecionar o açúcar orgânico para o mercado interno, em formato de menor valor agregado.
Para o etanol, o cenário é diferente. Cerca de 15% do etanol exportado pelo Brasil vai para os EUA. Mas, de tudo o que os americanos importam desse combustível, 70% é fornecido pelo Brasil – ou seja, não será simples, para eles, fazer a substituição. Além disso, o mercado doméstico funciona como “válvula de escape” para o produtor brasileiro, especialmente com o aumento da mistura de etanol na gasolina de 27% para 30%.
Soja: pressão da concorrência americana na China aumenta
Outro aspecto da guerra comercial inquieta a cadeia produtiva de soja. Donald Trump solicitou que a China quadruplique as compras da oleaginosa americana, o que pode afetar ainda mais a receita dos produtores brasileiros.
Uma retração nas vendas à China ampliaria a vulnerabilidade “dentro da porteira” de quem se dedica à atividade. As recuperações judiciais já atingiam 21,5 em cada mil empresas e produtores no segundo trimestre, alta de 67% em dois anos.