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À frente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde 2023, o economista Márcio Pochmann tem produzido o efeito que parte do mercado e do próprio corpo técnico temia desde sua indicação: arranhar a credibilidade da instituição responsável por mensurar a realidade econômica do país.

No auge de um embate com servidores que se arrasta desde o segundo ano da gestão, classificada como “personalista” e “autoritária”, a exoneração da coordenadora da área responsável pelo cálculo do PIB, Rebeca Palis, em 19 de janeiro, funcionou como estopim para a crise. O ruído ultrapassou os corredores do IBGE e ganhou as redes sociais sob a forma de suspeitas de “maquiagem” de dados.

Após a saída de Palis, pelo menos três integrantes da equipe — Cristiano Martins, Claudia Dionísio e Amanda Tavares — deixaram suas funções de confiança em solidariedade, aprofundando a crise em uma das áreas técnicas mais sensíveis do instituto.

A turbulência obrigou a Associação dos Servidores do IBGE (Assibge) a divulgar nota pública para desmentir eventual interferência metodológica. A entidade esclareceu que as críticas da categoria se dirigem à gestão e não à produção técnica dos indicadores. A entidade afirma que “em momento algum acolheu denúncias de interferências técnicas na metodologia das pesquisas ou em seus resultados.”

“Os trabalhadores são guardiões da credibilidade do IBGE”, afirmou Paulo Lindesay, diretor da Executiva Nacional. “Somos um órgão de Estado, e não de governo.”

As acusações de manipulação foram classificadas como enganosas por checagens independentes, mas o dano reputacional já estava em curso, amplificado pelo timing do episódio: às vésperas da divulgação do crescimento econômico do país, marcada para o próximo dia 3 de março.

“Sempre que o órgão responsável por estatística do país passa por esse tipo de desgaste é muito ruim, porque acaba colocando sob suspeição uma série de dados que são produzidos”, diz o analista institucional Cristiano Noronha, da Arko Advice.

Nesta quarta-feira (25), servidores divulgaram uma carta aberta em que denunciam ações de represália dentro do órgão e pedem apoio público à autonomia institucional e mudanças no modelo de escolha da presidência.

“Não se trata de divergência ideológica. Trata-se da preservação de uma instituição de Estado cuja credibilidade foi construída ao longo de quase nove décadas”, escrevem os signatários.

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Servidora exonerada denunciou suposta propaganda política

Em 28 de janeiro, menos de dez dias depois de Palis, foi exonerada Ana Raquel Gomes da Silva, gerente da Gerência de Sistematização de Conteúdos Informacionais (Gecoi), responsável pela revisão técnica de publicações do IBGE.

Há exatamente um ano, Ana e outro servidor denunciaram uma suposta propaganda política do governo de Pernambuco em uma publicação do instituto chamada “Brasil em Números”. De acordo com eles, a direção do IBGE recebeu e aprovou o material, que listou ações da gestão estadual em áreas como habitação e educação.

Logo após o caso se tornar público, Pochmann indicou que o IBGE recorreu a parcerias para viabilizar a publicação devido à falta de recursos. O presidente disse que não havia “nenhum ferimento à forma” de tratar as informações.

“Esse caso se soma a diversas outras exonerações e remoções arbitrárias promovidas pela gestão de Marcio Pochmann, que vem conduzindo uma caça às bruxas contra servidores que se posicionam na defesa técnica, institucional e histórica do IBGE”, afirmou o Assibge.

Pochmann sofreu resistência do próprio governo Lula

Desde sua indicação pelo presidente Lula, Pochmann foi alvo de duras críticas de economistas e enfrentou resistência dentro do próprio governo. Rotulado como “retrógrado” e “heterodoxo”, teve passagem conturbada pela presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) no governo Dilma Rousseff (PT).

Na ocasião, enfrentou acusações de aparelhamento político-ideológico e censura interna, o que provocou uma debandada de nomes históricos do instituto, que até então era visto como referência na produção de dados e diagnósticos sobre o país.

No IBGE, a crise interna vem escalando desde o fim do ano passado, mas o foco é gerencial. Além da falta de diálogo, os servidores reclamam de despreparo de Pochmann para lidar com uma estrutura complexa, capilarizada nacionalmente e regida por normas rígidas de governança.

Também relatam ausência de planejamento estratégico formal, decisões que atropelam fluxos consolidados e “documentação insuficiente do ponto de vista técnico” para projetos.

“Quando é apontado um problema técnico, a estratégia da gestão é desqualificar o corpo técnico”, resume Clician Oliveira, que integra o Conselho Curador da Fundação IBGE+ e o Conselho Político do Assibge.

Servidores técnicos não são ouvidos, diz sindicato

A tentativa de criação da Fundação IBGE+, em julho de 2024, virou um dos principais exemplos dos embates. A ideia era estruturar uma fundação pública de direito privado para permitir a captação de recursos externos e ampliar investimentos em pesquisa e tecnologia — num cenário em que mais de 90% do orçamento do instituto é consumido pela folha de pagamento.

O corpo técnico alertou que a criação de uma fundação vinculada a um órgão da administração pública indireta exigiria autorização legislativa específica. Em novembro de 2024, a própria Advocacia-Geral da União (AGU) reafirmou a necessidade de lei para a criação da entidade, e o registro acabou suspenso.

Outro ponto de tensão foi o contrato firmado, em meados de 2025, com o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) para o Programa Nacional de Inteligência e Governança Estatística e Geocientífica.

A parceria foi apresentada como medida para reforçar a “soberania de dados” após Márcio Pochmann afirmar que as big techs “sabem mais sobre os brasileiros do que o governo”. Servidores, porém, questionam a necessidade técnica do contrato diante da estrutura já existente no instituto.

Para Oliveira, o problema é a “falta de experiência em administração da máquina pública do tamanho que é o IBGE”. Projetos na administração pública exigem documento escrito, justificativa, escopo, parceiros, cronogramas, riscos. “Ele tem uma enorme dificuldade de fazer avaliação de risco. Parece grego para ele”, diz.

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Pochmann responde a críticas com exonerações

O sindicato sustenta que Pochmann vem respondendo às críticas com retaliação. As exonerações de servidores têm se seguido a questionamentos internos sobre projetos institucionais, mudanças administrativas e procedimentos técnicos.

Em novembro de 2025, cinco gerentes da área de Comunicação Social do IBGE foram exonerados de suas funções de confiança: Marcelo Benedicto Ferreira (supervisão de relacionamento com a imprensa), Diana Souza, Ana Laura Azevedo, Adriana Saraiva e Irene Cavaliere Gomes.

Todos tinham longa experiência na interlocução do instituto com a imprensa. Foram substituídos por servidores recém-aprovados no concurso realizado naquele ano, ainda em estágio probatório. As exonerações foram comunicadas por meio de publicação na intranet institucional, sem aviso prévio individual, o que provocou reação interna e do sindicato.

A presidência do IBGE afirmou que as mudanças faziam parte de uma reorganização administrativa e que os novos ocupantes dos cargos foram escolhidos com base em “currículos de excelência”.

Outro lado

A Gazeta do Povo solicitou entrevista com o presidente do IBGE, mas não obteve resposta. O espaço segue aberto para posicionamento.

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