Receitas para sobreviver ao século XX – CartaCapital

Quando a escritora Gertrude Stein morreu, em 1946, deixando Alice B. Toklas aos setenta e cinco anos — viúva após quase quarenta anos juntas —, havia um problema imediato: Alice estava quebrada. Um editor dos Estados Unidos fez uma proposta: ela deveria dedicar seu tempo a escrever uma biografia de Gertrude, seguindo o modelo da célebre Autobiografia de Alice B. Toklas,livro que Gertrude havia escrito em primeira pessoa como se fosse Alice, um dos marcos do modernismo da década de 1920.

Alice recusou. “Gertrude já fez a minha autobiografia.”

O editor não insistiu, mas seu rosto caiu em tristeza e ele permaneceu em silêncio. Alice então sugeriu: “O que eu posso fazer é um livro de culinária e reunir algumas memórias”. Foi a gênese do que se tornaria um dos livros de receitas mais famosos de todos os tempos, embora O Livro de Cozinha de Alice B. Toklas (cuja última edição brasileira é de 1996, pela Companhia das Letras) seja muito mais do que um livro de cozinha.

Escrever o livro foi uma aventura. A comida na França do pós-guerra era racionada. Os preços do mercado negro, exorbitantes. Stein havia morrido, deixando sua companheira de quase quarenta anos com a guarda da célebre coleção de arte — Picassos, Matisses, Cézannes —, mas os termos do testamento especificavam que nada poderia ser vendido sem a permissão dos curadores, que resistiam.

Americanos tinham acesso privilegiado ao comissariado da embaixada — onde comida, bebidas e cigarros eram vendidos a preços de pechincha, desde que houvesse um motivo legítimo. “Você deve se lembrar”, escreveu Alice a um amigo, “que tenho tentado manobrar para ser admitida no comissariado americano, onde os preços da comida são bem melhores… e finalmente consegui, desde que pudesse ter receitas impressas”.

O livro não seria publicado antes de 1954, oito anos depois de iniciado —, um atraso explicável tanto pelas dificuldades editoriais do pós-guerra quanto pelos conflitos internos após a morte de Stein e pela natureza idiossincrática do manuscrito que Alice produzia. Toklas tinha a ambição de não fazer um livro de receitas clássico, mas de entremear a comida com memórias da guerra e do modernismo.

Pablo Picasso aparece em um dos trechos mais famosos da obra. O artista tinha uma dieta rígida, buscava comer mais peixes e vegetais. Alice decidiu servir um linguado. O peixe não chegou à mesa apenas cozido: foi “pintado” por ela com uma maionese tingida de vermelho-tomate, decorada com gemas de ovo peneiradas e trufas negras. Ao olhar para o prato, Picasso disparou uma pergunta carregada de veneno: “É magnífico! Mas não deveria ter sido feito em homenagem a Matisse em vez de a mim?”. Naquela sala de jantar em Paris, a comida era um campo de batalha de egos. Picasso e Matisse observavam de perto o trabalho um do outro, mas eram rivais.

Outro momento memorável é o capítulo “Assassinato na Cozinha”, em que Alice, em homenagem ao amor de Gertrude por romances policiais, abate peixes e pombos. Em certa ocasião, partiram para Chablis, onde encontrariam não apenas comida incomparável, mas também seu vinho favorito — o Chablis, um branco de mineralidade cortante que parecia ecoar sua própria clareza de espírito. O descanso foi interrompido por um presente: seis pombos brancos vivos, com um bilhete escrito por um amigo: “Como Alice é esperta, ela fará algo delicioso com eles.” Toklas comenta com azedume: “É certamente um erro permitir que uma reputação de esperteza nasça e se espalhe por amigos amorosos. É tão barato adquiri-la e tão caro pagá-la.”

Os pombos precisavam ser sufocados, depenados, limpos — e tudo isso deveria ser feito antes que Gertrude Stein voltasse, “pois ela não gostava de ver trabalho sendo feito”. Toklas descreve então como aprendeu a matar aves por sufocamento no mercado de Palma de Mallorca, onde uma cozinheira francesa tentou lhe ensinar “a assassinar por asfixia”. “Não há razão”, escreve Alice, “para que este crime devesse ter sido cometido publicamente ou para que eu tivesse sido obrigada a participar.” A lição prossegue com mulheres espanholas horrorizadas pelo método francês.

“Cuidadosamente, encontrei o ponto na garganta da pobre pomba inocente onde eu deveria pressionar, e pressionei”, escreve Alice. “A percepção nunca havia me ocorrido antes de que se vê com as pontas dos dedos tanto quanto com os olhos. Foi uma experiência muito desagradável, embora, à medida que dispunha um por um os doces jovens cadáveres, não se podia negar que alguém poderia se acostumar a assassinar.”

Há também episódios cômicos. Quando, em 1916, Gertrude começou a dirigir “Tia Pauline” — nome de batismo, “não em champanhe, apenas em vinho branco”, de seu caminhão de entregas para ajudar feridos franceses na guerra —, ela sabia fazer tudo, exceto dar marcha à ré. Ao estacionar o caminhão bloqueando a saída de um pátio cheio de veículos militares, um oficial educadamente pediu que ela recuasse. “Oh, isso”, exclamou Gertrude Stein, “eu não posso fazer” — como se fosse um pecado imperdoável que ele estivesse pedindo que ela cometesse. Foi preciso que o oficial a guiasse fisicamente para que a manobra ocorresse.

A tensão entre beleza e brutalidade acompanhou Alice até o fim. Como Janet Malcolm observou em um ensaio na New Yorker, o destino de Alice após a morte de Gertrude foi marcado por uma melancolia cortante. Sem reconhecimento legal, ela viu telas de Picasso serem arrancadas de suas paredes por herdeiros ávidos. Alice terminaria seus dias em um apartamento de paredes nuas. O livro de cozinha, publicado em 1954, foi seu último ato de soberania — um documento que nenhum herdeiro lhe arrancou.

O livro termina com a observação de dois amigos sobre se um livro de receitas tem algo a ver com escrever. Ao concluí-lo, chega-se à sensação clara de que Alice B. Toklas viveu a vida — e o século XX — como poucos. Ela testemunhou a revolução cubista, alimentou literalmente o modernismo, sobreviveu à Ocupação, perdeu o amor de sua vida e, aos setenta e cinco anos, transformou suas memórias em receitas. Para Toklas, a cozinha não era sobre literatura; era sobre a própria vida. Servida sem adornos, com toda a verdade que o paladar é capaz de suportar.

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