
A reforma administrativa, apresentada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), como uma das principais bandeiras de sua gestão, acabou relegada ao segundo plano em Brasília. Em meio ao calendário eleitoral de 2026, o governo Lula (PT) evita assumir posição na pauta e partidos do Centrão já tratam o tema como fora da agenda imediata, deixando Motta isolado na tentativa de avançar com a proposta.
Desde 2025, Motta atuou como principal fiador da reforma, defendendo mudanças para “modernizar” a administração pública, combater supersalários e criar mecanismos de avaliação de desempenho. No entanto, a proposta enfrentou retirada de apoios ainda na fase inicial e passou a ser vista por líderes partidários como uma pauta sem timing. Nos bastidores, congressistas avaliam que reformas estruturais dificilmente avançam sem coordenação direta do governo e ampla mobilização da base, cenário que hoje não existe.
A proximidade das eleições gerais reduziu o espaço para discussões consideradas sensíveis. Líderes do Centrão avaliam que há uma janela curta de votação antes do esvaziamento do Congresso para as campanhas, o que diminui ainda mais as chances de aprovação de uma PEC com impacto relevante sobre o funcionalismo público.
A leitura predominante é que, em ano eleitoral, não há disposição para enfrentar categorias organizadas nem assumir custos políticos associados a mudanças na estrutura do Estado. O próprio Motta, que no início do processo adotava tom otimista, passou a reconhecer que o debate tende a ser mais lento e complexo.
O texto da reforma ainda precisa passar por comissão especial antes de seguir ao plenário da Câmara, onde necessitaria de pelo menos 308 votos em dois turnos.
Governo evita assumir liderança
Embora integrantes do Executivo reconheçam a necessidade de discutir privilégios e supersalários, o Palácio do Planalto mantém distância da proposta. Congressistas aliados afirmam que o governo Lula (PT) avalia o texto como amplo demais e potencialmente desgastante, especialmente diante da pressão de sindicatos próximos à base governista.
O relator da reforma, deputado Pedro Paulo (PSD-RJ), tem criticado publicamente a falta de apoio do Executivo e afirma que a ausência de decisão política dificulta o avanço da matéria. Ao jornal Folha de S.Paulo, disse que sem o engajamento do governo, propostas estruturais acabam sem sustentação no Congresso.
O veto do presidente Lula a um novo penduricalho aprovado para servidores do Legislativo – que previa gratificações e licenças compensatórias com possibilidade de pagamento em dinheiro – foi visto por aliados da reforma como sinalização contra supersalários. Ainda assim, interlocutores do governo ressaltam que a medida não representa adesão à reforma administrativa, mas apenas uma posição pontual sobre benefícios considerados excessivos.
Centrão recua e Motta fica isolado
Sem apoio explícito do Executivo e com a retirada gradual de assinaturas e apoios, a reforma perdeu tração dentro da própria Câmara. Lideranças do Centrão passaram a avaliar que o tema não reúne condições para avançar neste momento, o que deixou Hugo Motta sem o eixo necessário para conduzir uma votação de alto quórum.
Congressistas reconhecem que a proposta exigiria capital político elevado e coordenação entre governo e base aliada, dois fatores considerados ausentes no atual cenário. A percepção predominante é que a pauta foi lançada fora de tempo e que a agenda eleitoral tornou improvável qualquer avanço significativo até o fim da legislatura.
Paralisia
Apesar de Motta continuar defendendo a modernização do Estado, líderes partidários avaliam que a reforma administrativa deve permanecer paralisada e pode acabar sendo retomada apenas em um próximo ciclo político, possivelmente após 2027.
