Livro recupera A Barca do Sol, banda alternativa que marcou os anos 70 – CartaCapital

O efervescente início dos anos 1970, que fez emergir grupos como Novos Baianos, Os Mutantes, Secos & Molhados e Som Imaginário, contou também com uma cena independente, da qual a banda A Barca do Sol foi uma das principais representantes.

Narrado em primeira pessoa, o livro A Barca do Sol: Memórias de um Certo Verão, de Yuri Behr (Gryphus Editora; 148 páginas), lançado em 2025, recupera a trajetória da iniciativa.

A obra desfaz um dos mais destacados erros sobre a banda: a alegação de que ela teria surgido para acompanhar Piry Reis. A proximidade do cantor com A Barca do Sol, segundo o livro, decorria apenas do fato de Piry ser parceiro musical de Geraldo Carneiro, principal compositor da banda. 

Irmão de Geraldo, o imortal da Academia Brasileira de Letras Nando Carneiro, que integrava a banda, também conhecia Piry e pedia para ele lhe ensinar a tocar suas músicas no violão. Nada mais existiu entre as partes.

O livro também contesta o rótulo de que a banda tocava rock progressivo. Para Yuri Behr, embora houvesse proximidade com o gênero, a sonoridade central acústica ia muito além, com um resultado de vanguarda e experimental.

O primeiro álbum saiu em 1974, com produção de Egberto Gismonti. Depois vieram Durante o Verão (1976) e Pirata (1979).

A formação mais clássica tinha Nando Carneiro (violão, vocal), Muri Costa (violão, viola, vocal), Jaques Morelenbaum (violoncelo, piano, vocal), Alain Pierre (baixo), Marcelo Costa (bateria, percussão), Beto Resende (violão, guitarra, percussão) e David Ganc (flauta).

No começo, o flautista Marcelo Bernardes chegou a fazer parte do grupo, mas decidiu estudar no exterior e foi substituído na flauta por Ritchie, que nos anos 1980 explodiria com o hit Menina Veneno.

A Barca do Sol ainda tocaria no álbum Corra o Risco, o primeiro de Olivia Byington. O grupo teve relativo sucesso nos anos 1970, emplacando músicas como Lady Jane Brilho da Noite (ambas dos irmãos Nando e Geraldo).

Encerrou as atividades no começo dos anos 1980, em um mercado fonográfico em forte transição: deixava de lado o romantismo fonográfico das décadas de 1960 e 70, do movimento de paz e amor, da influência da pscicodelia e do rock dos Beatles, para entrar em uma seara mais imediatista e comercial. 

Como diz o autor do livro, o sonho do movimento hippie até então daria lugar aos yuppies, extinguindo a relação de crítica ao sistema marcada pela agitação da contracultura: “Tipo de pensamento mais voltado ao individualismo, ao materialismo e ao sucesso profissional.”

No entanto, ressalta o livro, A Barca do Sol  fez questão de manter a independência, o desapego, a liberdade de fazer música e a busca pela utopia

Embora tenha frequentado programas de rádio e televisão, a banda basicamente se apresentou no circuito independente do eixo Rio-São Paulo — com viagens de carro. A divulgação dos shows partia de seus próprios integrantes, à base de boca a boca.

A Barca do Sol ainda se reuniria muito tempo depois em shows comemorativos. De seus expoentes, Jaques Morelenbaum se tornaria um dos grandes arranjadores do País e Marcelo Costa viraria um dos percussionistas mais requisitados da MPB.

O livro, embora com uma narrativa sem volume contextual, lembra que as boas ideias musicais ainda surgem do coletivo. 

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