
Dois anos depois de lançar seu primeiro disco, Cartola apresentou, em 1976, seu segundo álbum solo — pela mesma gravadora, a Marcus Pereira —, com pelo menos três registros inesquecíveis.
O primeiro é de sua obra-prima O Mundo É um Moinho, que abre o álbum de mesmo nome. A emblemática música começa com Altamiro Carrilho na flauta, até o sambista cantar com o violão do jovem Guinga ao fundo — este se destacaria como compositor parceiro de Aldir Blanc.
Cartola fez a música para a sua filha de criação, Creusa, que desejava sair de casa após uma desilusão amorosa: Ainda é cedo, amor/ Mal começaste a conhecer a vida/ Já anuncias a hora de partida/ Sem saber mesmo o rumo que irás tomar.
Outro registro antológico no disco é de As Rosas Não Falam. O lirismo do sambista vai ao ápice: Bate outra vez/ Com esperanças o meu coração/ Pois já vai terminando o verão/ Enfim/ Volto ao jardim/ Com a certeza que devo chorar/ Pois bem sei que não queres voltar/ Para mim/ Queixo-me às rosas/ Que bobagem as rosas não falam/ Simplesmente as rosas exalam/ O perfume que roubam de ti, ai.
Cartola canta ambos os sambas de forma comovente, transbordando a simplicidade e a brasilidade de uma vida sofrida.
O sambista fez o mesmo com outro histórico samba do álbum, neste caso como intérprete: Preciso Me Encontrar, de Candeia, sambista e compositor por quem Cartola tinha uma profunda admiração. A música trata da busca por algo em meio à infelicidade. Memorável, ela começa com violão e fagote (instrumento de sopro) por quase um minuto, até chegarem os versos Deixe-me ir/ Preciso andar/ Vou por aí a procurar/ Sorrir pra não chorar.
O segundo disco de Cartola contava com outras faixas que se tornariam célebres: Minha, Sala de Recepção, Não Posso Viver Sem Ela (esta de Cartola com Bide), Peito Vazio (com Elton Medeiros), Aconteceu, Sei Chorar, Ensaboa, Senhora Tentação (de Silas de Oliveira) e Cordas de Aço.
O disco, pelo repertório de densa poesia e registro singular de Cartola, é um dos mais importantes da música brasileira em todos os tempos.
Creusa, inspiração de O Mundo É um Moinho, participa das músicas Sala de Recepção e Ensaboa. A produção é de Juarez Barroso, e a direção musical e os arranjos ficam com Horondino Silva, o Dino Sete Cordas, que também tocou no disco.
O excelente time de instrumentistas do álbum tem ainda Meira (violão), Canhoto (cavaquinho), Nelsinho do Trombone, Altamiro Carrilho (flauta) e Abel Ferreira (sax tenor), com participações especiais de Airton Barbosa (fagote), Guinga (violão) e José Menezes (viola de 10 cordas).
Na percussão, Elton Medeiros (caixa de fósforos, tamborim, ganzá), Jorginho (pandeiro), Gilson (surdo), Nenê (cuíca e agogô) e Wilson Canegal (reco-reco e agogô).
É um disco de gênio!
