
O filme brasileiro Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton e estrelado pelo ator Lázaro Ramos, conquistou as duas principais premiações da mostra Generation Kplus, competição paralela do Festival Internacional de Cinema de Berlim dedicada a filmes internacionais para o público jovem.
A produção levou o Urso de Cristal (Gläserner Bär) de Melhor Filme, concedido pelo Júri Infantil da Generation Kplus.
“As emoções de cada personagem nos comoveram profundamente. Fomos arrebatados pela história envolvente, como se estivéssemos bem no meio dela. Questões importantes foram abordadas e merecem mais atenção”, afirmou o júri infantil ao justificar a escolha pelo Urso de Cristal.
A produção brasileira ganhou também o Grande Prêmio do Júri Internacional de Melhor Filme da Generation Kplus.
“Este filme nos cativou com sua narrativa envolvente, seu jovem protagonista multifacetado, autoconfiante e resiliente, e a maneira, muitas vezes bem-humorada e comovente, como ele lida com seus dilemas existenciais. Ficamos encantados com as performances inesquecíveis de Yuri Gomes e Teca Pereira, e jamais esqueceremos o personagem Gugu, tão atlético quanto fabuloso, que se vê obrigado a se impor à medida que seu laço especial com a avó se desfaz”, afirmou o júri da Generation Kplus, composto pelo diretor indonésio Khozy Rizal, a atriz alemã Lena Urzendowsky e a diretora de programação do Festival de Sundance, Kim Yutani.
Com paisagens e cores marcantes, o filme transporta o espectador para o sertão, com foco na vida em comunidade no semiárido. O ator principal é Yuri Gomes, que, assim como Lázaro Ramos, também começou sua formação artística no Pelourinho, em Salvador. É um filme que aborda a experiência de uma criança queer.
“Esse é o nosso cinema”
“Feito Pipa é a história de Gugu, um garoto de 10, 11 anos, que grita por liberdade, pelo direito de ser quem ele é. Mais do que querer ser aceito, ele diz: ‘Eu serei aceito do jeito que eu sou’. Ele mora com a avó porque a mãe faleceu, e o pai, que é o meu personagem, já tem uma nova família”, conta Lázaro Ramos em entrevista à DW Brasil.
O filme foi aplaudido de pé pelo público do festival berlinense. É uma produção que mostra essa diversidade que já virou marca registrada do cinema brasileiro atual.
No longa, Gugu tem quase 12 anos e sonha em tornar-se jogador de futebol. Às margens de um reservatório, que vai secando lentamente e deixando a descoberto os restos fantasmagóricos de uma cidade submersa, ele cresce sob o cuidado amoroso de sua avó Dilma.
A abertura e o calor dela proporcionam-lhe o espaço para ser simplesmente ele mesmo. O vínculo entre os dois, silencioso mas forte, os protege da rejeição do pai de Gugu e das pessoas que os rodeiam.
Quando velhas memórias voltam à superfície, mudanças quase imperceptíveis a princípio começam a alterar sua vida cotidiana. Dilma torna-se cada vez mais frágil e, pelo temor de perder o único lugar seguro que conheceu, nasce em Gugu a determinação de manter seu mundo intacto.
“No ano em que a gente também vem de um momento bonito, com Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto, eu acho que é, primeiro, ano de celebrar. Mas o que eu mais celebro é justamente essa diversidade de temas. E a gente estar reforçando a nossa estética, o nosso jeito de fazer cinema. Alguns anos atrás, pela sobrevivência, tentamos nos igualar ao filme médio, um filme morno, um filme moldado pelas métricas algorítmicas do streaming, e de repente a gente renasce, gritando para o mundo: ‘esse é o nosso cinema!’”, destaca Lázaro Ramos.
“Tem sido muito revigorante perceber que o cinema brasileiro está a todo vapor. Eu acho que é um momento encorajador para a maioria dos jovens realizadores. A gente também tem tido políticas que colocam esse cinema Brasil adentro, através das cotas e de editais descentralizadores. E Feito Pipa é fruto disso, de um cinema feito no Ceará”, afirma Allan Deberton, diretor de Feito Pipa, em entrevista à DW Brasil.
Na mostra principal, outros dois filmes dirigidos por brasileiros disputarão o Urso de Ouro da Berlinale. Rosebush Pruning, de Karim Aïnouz, e Josephine, de Beth de Araújo, estão entre as 22 produções selecionadas pela curadoria do festival. Os longas, contudo, são produções de fora do Brasil. Dez filmes com participação do cinema nacional foram exibidos ao longo do festival.
(DW, EFE, ots)
