Esperar resposta internacional ao ataque contra a Venezuela é ilusão, diz Ricupero – CartaCapital

Não há qualquer possibilidade de resposta concreta da comunidade internacional ou de organismos multilaterais à agressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a Venezuela. A avaliação é de Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil em Washington, em entrevista a CartaCapital.

Com passagens pelos ministério da Fazenda e do Meio Ambiente e pela Secretaria-Geral da Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento, Ricupero afirmou que as declarações de líderes internacionais sobre o ataque buscam apenas reforçar a defesa de princípios do direito, sem qualquer efetividade.

“Ninguém tem ilusão sobre isso”, resume. “Qual organismo poderia responder? O único seria a ONU, em cujo Conselho de Segurança os Estados Unidos têm poder de veto. Qualquer resolução condenando os Estados Unidos seria vetada, e só o Conselho poderia decidir, em teoria, sobre o uso da força.”

Para o ex-embaixador, a sorte de Nicolás Maduro, capturado e levado aos Estados Unidos, já está selada. A dúvida neste momento, prossegue, é o futuro da Venezuela, uma solução que depende da correlação interna de poder.

“A verdadeira força do regime não era Maduro, que não tinha a força de Hugo Chávez. A força vinha do apoio das Forças Armadas”, avalia. “A única evolução que os apoiadores de um ato como esse poderiam desejar seria a convocação de eleições em pouco tempo.”

Contribui para a falta de reação a postura cuidadosa da China, que condena a agressão a Caracas mas mantém seu pragmatismo, voltado aos seus próprios interesses geopolíticos — entre eles, a pressão sobre Taiwan.

Em um pronunciamento na tarde deste sábado 3, Trump disse que os Estados Unidos “governarão” a Venezuela até se concretizar o que chamou de “transição adequada e justa”. Segundo ele, a Casa Branca estava preparada para um novo ataque, “muito maior”, mas estima que “provavelmente” não será necessário.

O presidente declarou ainda que o petróleo venezuelano “voltará a fluir” com uma companhia norte-americana na liderança das operações.

Na América Latina também impera uma certa apatia. Rubens Ricupero ressaltou que a margem de manobra do Brasil no repúdio à agressão norte-americana é estreita, uma vez que, além da ausência de mecanismos eficientes de resposta, o governo Lula ainda busca avançar na reconstrução dos laços com Washington após as sanções aplicadas em julho e revertidas — em grande parte — no fim de 2025.

“Haverá um protesto, mas dentro dos limites”, projetou. “Elevar muito o tom não adianta, porque não vai servir para nada. Se servir, será para tornar mais difícil ainda a relação brasileira, que não é boa.”

Ainda assim, pondera, Trump abre um precedente bastante perigoso, porque até aqui suas ações na região miravam supostos narcotraficantes, sem uma conotação política mais ampla e direta. Além disso, a agressão ocorre em um momento em que a América do Sul se divide no aspecto ideológico: por exemplo, com governos de esquerda no Brasil e na Colômbia, e com administrações de direita na Argentina e, agora, no Chile.

Embora Trump tenha insistido nos últimos meses na alegação de combate a embarcações supostamente vinculadas ao tráfico de drogas, o ataque deste sábado é mais estratégico e pode levar a ganhos pessoais na disputa política interna, segundo Ricupero — inclusive no flerte trumpista com um terceiro mandato em 2028.

Desta forma, o republicano repete uma abordagem utilizada em junho, quando bombardeou instalações nucleares do Irã: ações espetaculares, mas limitadas e cirúrgicas, sem escalar para um confronto aberto e generalizado, ao menos de início. Como lembra o ex-ministro, uma parcela significativa dos eleitores de Trump reivindicava o fim do envolvimento dos Estados Unidos em contendas internacionais, não o início de novas guerras.

Trata-se de uma abordagem arriscada. “Uma hora pode haver um erro de cálculo e isso pode levar a algo mais grave”, adverte o diplomata. Ao que tudo indica, porém, ainda não será desta vez, e a Venezuela se vê no centro de um cenário de incerteza tão comum em intervenções norte-americanas na América Latina no século XX.

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