SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A previdência privada é uma opção de investimento popular entre quem busca complementar a aposentadoria e ter uma fonte de renda extra após parar de trabalhar. Há quem utilize esse tipo de investimento para fins sucessórios, para deixar a herdeiros, ou para juntar dinheiro para a educação dos filhos.

Para analistas, a modalidade é uma alternativa interessante para acumular recursos no longo prazo por oferecer benefícios fiscais. No entanto, definir uma instituição financeira segura para fazer os aportes e um plano de previdência adequado ao perfil de risco são cuidados que o investidor deve tomar.

Investir em previdência privada também pode reduzir o Imposto de Renda de quem faz a declaração no modelo completo e opte por um plano do tipo PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre).

A modalidade pode ser uma ferramenta vantajosa de planejamento sucessório, já que permite a transmissão de recursos aos beneficiários sem necessidade de inventário.

BENEFÍCIOS FISCAIS SÃO VANTAGENS

Para especialistas, os benefícios fiscais são a principal vantagem para quem tem a possibilidade de manter o investimento no longo prazo, pois permitem pagar 10% de alíquota no Imposto de Renda, caso opte pela tabela regressiva e mantenha a aplicação por ao menos dez anos. Investimentos como CDBs e títulos do Tesouro Direto, por exemplo, têm tributação mínima de 15%.

Segundo Stefano Tremea, planejador financeiro CFP pela Planejar (Associação Brasileira de Planejamento Financeiro), a previdência é uma opção válida para quem faz planejamento sucessório. O ITCMD (Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação), tributo estadual sobre herança, não é cobrado sobre fundos de previdência do tipo VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre) e PGBL -algo referendado pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

A portabilidade, possibilidade de transferir o plano entre instituições financeiras, também é um benefício. Myrian Lund, professora de finanças pessoais da FGV (Fundação Getulio Vargas), destaca que o investidor pode reaplicar o valor em outro produto, da mesma instituição ou de outra, sem precisar resgatar e pagar Imposto de Renda.

PREVIDÊNCIA PRIVADA FECHADA OU ABERTA?

A previdência fechada, também conhecida como fundos de pensão, beneficia funcionários de uma determinada empresa, servidores públicos de estatais ou representantes de classes profissionais -como professores federais. Previ (do Banco do Brasil), Funcef (da Caixa Econômica Federal) e Petros (da Petrobras) são exemplos.

Segundo a Previc (Superintendência Nacional de Previdência Complementar), os fundos de pensão totalizavam R$ 1,4 trilhão em reservas previdenciárias em setembro de 2025, o equivalente a 11% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro. A arrecadação anual do setor foi de R$ 67 bilhões até o mesmo mês.
A aberta é vendida por instituições financeiras -bancos e seguradoras- e pode ser contratada por qualquer pessoa. Brasilprev, Bradesco Vida e Previdência e Itaú Vida e Previdência são exemplos.

Segundo a Susep (Superintendência de Seguros Privados), os planos abertos, em formato VGBL, somavam R$ 1,4 trilhão em agosto de 2025. Durante o ano, as contribuições recebidas foram de R$ 7,7 bilhões (PGBL) e R$ 89,3 bilhões (VGBL).

QUAIS AS DIFERENÇAS ENTRE PGBL E VGBL?

Nas instituições financeiras, isso é, entre as previdências abertas, o investidor precisará escolher entre o PGBL e o VGBL .

O PGBL é opção para complementar a renda nas aposentadorias e costuma ser adotado por quem opta pelo modelo completo da declaração de Imposto de Renda. Pelo regime, é possível deduzir até 12% da renda tributável anual com previdência privada, o que pode aumentar a restituição ou reduzir o imposto devido no ano.

No VGBL, não há essa dedução. O formato é considerado um seguro pessoal. A modalidade é mais indicada para quem declara pelo modelo simplificado.
O Imposto de Renda incide sobre o valor total do PGBL (inclusive rendimentos). Já no VGBL, o IR incide só sobre os rendimentos.

TABELA REGRESSIVA OU PROGRESSIVA?

Uma lei de 2024 mudou a regra sobre a escolha do regime de tributação de previdência privada. Antes, o investidor precisava optar pela tabela progressiva ou regressiva ao contratar o plano. Agora, ele pode usar a tabela mais vantajosa para seu caso quando for resgatar o dinheiro, e isso vale para o VGBL e o PGBL.

Na tabela progressiva, a instituição financeira retém 15% do IR na fonte, a título de antecipação, quando é feito o resgate. A alíquota final é calculada na declaração do Imposto de Renda e pode chegar a 27,5%.

Já na tabela regressiva, a alíquota diminui conforme o tempo de investimento: começa em 35% para aplicações de até dois anos e chega a 10% para prazos acima de dez anos.

RESGATE OU RENDA?

A previdência privada tem duas fases: a de acumulação e a de usufruto. Na de acumulação, o participante faz aportes, que podem ser esporádicos ou periódicos -sem frequência mínima obrigatória. O patrimônio é aplicado de acordo com o plano escolhido.

Não há exigência de encerramento dessa etapa: o investidor pode permanecer nela pelo tempo que desejar.

Quando decidir usufruir do valor acumulado, pode escolher diferentes formas de recebimento. É possível realizar resgates esporádicos, geralmente a cada 60 dias ou conforme as regras da seguradora, ou sacar todo o montante de uma só vez.

Outra alternativa é converter o saldo acumulado em renda, de acordo com os formatos oferecidos pela instituição. A renda vitalícia garante pagamentos mensais até o falecimento do titular; a renda vitalícia com reversão ao beneficiário prevê a continuidade do pagamento ao cônjuge ou dependente após a morte do investidor; e a renda temporária estabelece pagamentos mensais por um período determinado.

COMO FUNCIONA A TAXA DE ADMINISTRAÇÃO DA PREVIDÊNCIA PRIVADA?

É cobrada sobre todos os fundos e remunera as seguradoras que operam as previdências complementares. No caso da previdência privada, incide sobre o capital total, incluindo os rendimentos.

Segundo Stefano Tremea, da Planejar, o ideal é evitar planos com taxas acima de 2% para produtos de renda fixa, pois isso reduz a rentabilidade. “É preciso procurar planos com taxas entre 0,3% e 0,5% ao ano.”

Para Antônio Sanches, analista de research da Rico, é necessário comparar a previdência escolhida com outros fundos semelhantes. “Para avaliar se a taxa é vantajosa, é preciso verificar se a rentabilidade entregue está alinhada com o mercado”, afirma.

TRIBUTAÇÃO ELEVADA NO CURTO PRAZO E DESPROTEÇÃO DO FGC SÃO DESVANTAGENS

Quem opta pela tabela regressiva e faz resgates em menos de dois anos pode pagar 35% de Imposto de Renda. O percentual é elevado para incentivar os investidores a manterem os aportes por mais tempo.

Há o risco de investir em uma seguradora pouco sólida. A previdência privada não é coberta pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos). Se a instituição responsável pelo plano falir, o investimento pode ser perdido.

Depósitos à vista, como CDBs, são cobertos pelo FGC. Caso o banco ou a seguradora venha à falência, investimentos de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ são ressarcidos pelo fundo garantidor.

ALTA DO IOF IMPACTA A PREVIDÊNCIA PRIVADA?

O decreto que aumentou o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) causou turbulência no setor. Com a nova regra, validada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, quem investir mais de R$ 600 mil (ou R$ 50 mil por mês) em VGBL pagará 5% de IOF sobre o valor excedente em 2026. O limite será por CPF.
Até lá, aportes feitos entre 11 de junho e 31 dezembro de 2025 serão tributados se ultrapassarem R$ 300 mil por seguradora.

Para Myrian Lund, o maior impacto é sobre investidores que fariam grandes aportes. “Se o investidor quer aplicar R$ 3 milhões na previdência para fins sucessórios, ele levará alguns anos para fazer isso e evitar a alta da tributação”, diz.

“A medida afeta pessoas de classe média, com 60 ou 65 anos, que venderam um imóvel e poderiam aplicar o valor na previdência, mas precisarão dividir o investimento em aplicações de curto prazo, diz Estevão Scripilliti, membro da Comissão de Produtos de Risco da Fenaprevi.

A PREVIDÊNCIA PRIVADA SUBSTITUI A APOSENTADORIA? QUAIS SÃO AS DIFERENÇAS?

Na visão de analistas, não. A previdência privada deve ser encarada como um complemento à aposentadoria, e não como a única fonte de renda futura.

O valor das aposentadorias do INSS varia entre o salário mínimo (R$ 1.518) e o teto (R$ 8.157,41 em 2025). A reforma da Previdência, de 2019, reduziu o valor de novas aposentadorias, pois o cálculo da média salarial parou de descartar as menores contribuições do trabalhador.

Dentre as opções de investimento pensando na aposentadoria estão Tesouro Renda+ e a previdência privada.

Quem contribui para a Previdência Social também tem acesso a benefícios como auxílio-doença, salário-maternidade e auxílio-acidente.

A previdência privada permite o resgate antes do prazo definido no momento da contratação, desde que respeitadas as regras do contrato. A aposentadoria do INSS só é possível após atingir um tempo mínimo de contribuição e de idade.

QUAIS SÃO OS ERROS MAIS COMUNS AO ESCOLHER UMA PREVIDÊNCIA PRIVADA?

Segundo Stefano Tremea, da Planejar, é importante verificar a solidez da seguradora, avaliar as taxas de administração e assegurar que a estratégia do fundo seja compatível com o perfil do investidor.

“Se tenho perfil conservador, não faz sentido eu contratar um plano de previdência privada que invista em ações. Tenho que ter um plano de previdência condizente com a minha estratégia”, afirma.

Outro erro comum, de acordo com o diretor da SulAmérica Victor Bernardes, é guardar o dinheiro na previdência sem objetivo definido. “Você vai fazer o que com esse dinheiro? É para custear a saúde, viajar, não dar trabalho para os filhos? Quando você dá nome, fica mais difícil de gastar.”

Para Bernardes, não se deve confundir o dinheiro de emergência com o da previdência privada, pois na emergência o cliente terá que resgatar um dinheiro que é “caro no curto prazo” e pagará mais imposto. “Ele não vai aproveitar os benefícios da previdência privada como deveria”, afirma.

Para Myrian Lund, optar por uma única previdência para grandes somas, ignorando que o resgate é permitido apenas a cada 60 dias, também pode ser um problema.

PREVIDÊNCIA PRIVADA É OPÇÃO VANTAJOSA PARA HERANÇA?

A previdência privada também pode oferecer agilidade no processo de transferência de patrimônio por não entrar no inventário, procedimento legal de partilha de bens.

Aplicações como CDBs , títulos do Tesouro e fundos de investimento ficam bloqueadas durante o processo. “Em regra, os valores permanecem bloqueados até a conclusão do inventário e a formalização da partilha, mediante apresentação da documentação necessária à instituição financeira”, diz Luciana Pantarotto, advogada especializada em planejamento sucessório e tributário.

Para ela, os familiares do falecido se beneficiam de liquidez mais rápida, “com a liberação dos valores em alguns dias após a apresentação da documentação, sem necessidade de aguardar a conclusão do inventário”.

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