Em sétima carta, COP30 pede engajamento do setor privado no combate às mudanças climáticas – CartaCapital

A presidência da COP30 está convencida de que só com recursos do setor privado será possível fechar a conta do combate às mudanças do clima em um “contexto de incerteza sistêmica, em que a urgência climática interage com desafios geopolíticos e socioeconômicos agravados”. O financiamento das iniciativas para uma transição energética justa é um dos principais nós a serem desatados na conferência que será realizada em Belém. Este é o foco da sétima carta divulgada nesta sexta-feira 29 à comunidade internacional pelo embaixador André Corrêa do Lago.

O texto busca ainda justificar a escolha problemática da capital paraense como sede da conferência. “Reconhecemos que viajar a Belém apresenta desafios logísticos. Mas este é precisamente o momento em que o setor privado pode liderar o caminho, para demonstrar que liderança climática significa engajamento com o mundo real”, diz a carta.

O documento ressalta que a Amazônia é um símbolo da urgência planetária e lar de pessoas cujas vidas representam tanto a linha de frente da crise climática quanto o cerne de suas soluções. “Vir a Belém é uma oportunidade de arregaçar as mangas, ouvir, aprender e participar do espírito colaborativo do mutirão global. Essas conversas cruciais devem acontecer não apenas onde é fácil, mas onde é mais importante”, conclui.

A missiva convoca empresas e instituições financeiras a liderar a transição climática, reforçando o multilateralismo, conectando o regime climático à vida real e acelerando o Acordo de Paris. E diz que, se há uma tendência certa neste contexto de incertezas é a de que a transição climática em curso é irreversível.

Em conversa com jornalistas, Corrêa do Lago admitiu que o momento atual é muito distinto daquele em que se realizou a Rio-92, a conferência fundadora do multilateralismo climático, quando se achava que os recursos tinham de ser públicos e vir dos países desenvolvidos.

“Países desenvolvidos fugiram de responsabilidade”

“Não só os países desenvolvidos fugiram clarissimamente da responsabilidade dos recursos públicos, como a escala do que é necessário se tornou infinitamente maior do que todo mundo achava em 1992. Então, o setor privado vai, sim, ter papel na maioria das opções que a gente deve mostrar que são possíveis para aumentar os recursos para 1,3 trilhão de dólares”, afirmou.

A despeito do desengajamento evidente do governo americano sob Donald Trump, ele acredita que, em havendo oportunidades, “o setor privado americano poderá ter participação muito maior do que o setor público americano jamais teve”.

“As contribuições públicas dos EUA nos fundos, etc., que foram criadas para o combate à mudança do clima é muito inferior à proporção e à relevância dos EUA. Mesmo durante esse governo, se houver oportunidades de negócios que identifiquem como vantajosas para suas instituições, acho que não haverá batalha ideológica com relação a isso”, completou.

O presidente Lula enviou a Trump carta em que convida o republicano para a reunião de cúpula em Belém. Ainda não teve resposta. Segundo a CEO da COP30, Ana Toni, os EUA não participaram de reuniões em nível ministerial para a organização da COP30 e sequer enviaram representantes à última grande reunião técnica anterior a Belém, realizada em Bonn, na Alemanha, em junho.

Toni afirmou, contudo, que estados e empresas americanos têm se engajado nos compromissos pelo clima, embora de forma menos vocal, por medo de represálias. É o que se chama greenhushing, a prática de empresas que subnotificam intencionalmente ou permanecem em silêncio sobre seus esforços de sustentabilidade para evitar críticas, escrutínio e potenciais acusações de greenwashing, ainda que tenham registrado progresso. Na leitura do embaixador Corrêa do Lago, esse não deixa de ser fenômeno positivo de que as “empresas estão se dando conta de que o que é passageiro é o governo e não a transição”. “Espero que tenham um pouco de coragem em Belém”, destacou.

Na carta, o presidente da COP30 insiste que, para concretizar plenamente o potencial da Agenda de Ação, considera o setor privado um beneficiário da transição climática e parceiro indispensável para impulsionar sua implementação. “Isso significa avaliar os riscos relacionados ao clima, adotar planos de transição confiáveis ​​e se posicionar para um engajamento significativo com países e investidores em relação a políticas, financiamento e execução”, enfatiza o texto.

Ao tratar das oportunidades do segmento, a presidência cita números do recente relatório das Nações Unidas Aproveitando o momento da oportunidade, que mostram quem a energia limpa sozinha gerou mais de 2 trilhões de dólares em investimentos globais somente no ano passado, após ter gerado quase 35 milhões de empregos em 2023. “No Brasil, o Tesouro Nacional, empresas e bancos emitiram mais de 30 bilhões de dólares em títulos verdes até 2024 — todos com juros mais baixos do que os títulos tradicionais — enquanto o setor de energia renovável gerou mais de 1,5 milhão de empregos”, diz.

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