Criolo, Dino D’Santiago e Amaro Freitas se unem em um álbum sublime – CartaCapital

Quando Criolo fala de Dino D’Santiago e Amaro Freitas, a palavra “ancestralidade” surge como chave interpretativa. O rapper diz que os dois carregam na música uma herança que “transforma o ambiente musical”. Não é força de expressão: é a síntese de um encontro artístico que amadureceu no tempo e desembocou agora em um dos discos mais fortes do ano.

Criolo conheceu D’Santiago em 2023, quando o cantor português, de ascendência cabo-verdiana, elogiou publicamente Nó na Orelha (2011). “Fiquei muito emocionado com o depoimento dele sobre meu trabalho”, conta Criolo a CartaCapital. Naquele momento, o rapper já tinha pronto um disco de samba e chegou a pensar em dividir os vocais com Dino. Mas a composição de “Esperança”, feita pela dupla a quatro mãos, mudou o rumo da história. Para ampliar a paisagem sonora da canção, Criolo convocou o pianista pernambucano Amaro Freitas, a quem tinha sido apresentado por Milton Nascimento.

O resultado foi contundente. “Esperança” ganhou contornos de manifesto por transformação social e acabou indicada ao Grammy Latino de Melhor Canção em Língua Portuguesa de 2024.

Um ano depois, Criolo, Dino e Amaro voltaram a se encontrar. Desta vez, para gravar um álbum conjunto. Estava formado o trio que agora apresenta Criolo, Amaro & Dino, um disco que nasce grande e já se impõe como um dos melhores do ano.

O álbum cruza soul, rap e jazz com ritmos cabo-verdianos — como morna, coladeira e funaná — e tradições nordestinas, a exemplo do coco.

“São dois artistas extremamente sensíveis. Eles carregam a ancestralidade. Isso é o que transforma esse ambiente musical tão diferente. Não tem nada ali em vão”, resume Criolo. “Deixamos muita energia ali, mas também celebramos a amizade.”

Das 12 faixas do disco, apenas duas não foram compostas coletivamente: “Seka” e “No Vento de Nós”, ambas assinadas exclusivamente pelo português. As letras são sutilmente políticas, com marca forte de Criolo.

O resultado é um álbum orgânico, de sonoridade autêntica, em que a minúcia de Dino ao cantar convive com sua “simplicidade e generosidade enormes”, como define o rapper. Já no caso de Amaro, a sofisticação parece fluir sem esforço, integrada ao conjunto.

Além de assumir piano, teclado e contrabaixo, Amaro trouxe para o projeto o instrumentista de sopros Henrique Albino, que colaborou nos arranjos. Na faixa de abertura, “E se Livros Fossem Líquidos”, o trompetista Ed Trombone ainda faz uma participação luminosa, abrindo o disco com uma performance arrebatadora.

O encerramento fica por conta de “Hoje Eu Vi Você”, faixa que já pode ser colocada entre as melhores do ano. O solo de Amaro Freitas, ao mesmo tempo lírico e incendiário, sintetiza o espírito do disco.

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