'Criminalização do funk não tem a ver com as letras, mas com o racismo' – CartaCapital

A banda em que atuava como backing vocal, a Blitz, já havia se dissolvido quando Fernanda Abreu teve contato, pelas mãos do antropólogo Hermano Vianna, com um movimento musical em franca ascensão no Rio de Janeiro. À época, Vianna acabara de lançar O Mundo Funk Carioca, obra fundamental para compreender a cena que se formava nos subúrbios e favelas da cidade.

“Quando cheguei ao baile, nunca tinha visto um sound system daquele tamanho. Milhares de pessoas dançando. Não havia MCs ainda, só DJs”, recorda a cantora, em entrevista a CartaCapital.

Abria-se ali um novo horizonte, longe de qualquer fórmula industrial. “Era um movimento autêntico. Não tinha sido criado por publicitário, gravadora ou empresário”, afirma. Mais do que uma novidade sonora, Fernanda identificou nos bailes uma “voz da favela” — algo ainda pouco presente na música brasileira da época.

Esse florescimento cultural, porém, ocorreu em paralelo a um momento particularmente delicado da cidade. O avanço da violência urbana e a entrada de armamento pesado nas comunidades passaram a pautar o noticiário e moldar percepções. “Isso trouxe uma visão muito equivocada da mídia e das elites, que tentavam juntar a imagem da juventude do funk ao tráfico e às facções criminosas”, avalia.

O efeito dessa leitura distorcida foi profundo e duradouro: durante muitos anos, o funk foi marginalizado e criminalizado, a ponto de qualquer violência recair automaticamente sobre ele. Hoje, diz Fernanda, a raiz do problema está mais clara: “Não tem a ver com música ou com letra. Tem a ver com racismo estrutural, porque aquela música é feita por preto, pobre, favelado”.

O funk se tornou um dos pilares da música de Fernanda Abreu, ao lado de referências dos bailes charme de música negra, da disco e do house. “Eu queria mostrar para o Brasil que a minha pegada era a música dançante”, resume. No terceiro disco solo, Da Lata, um novo elemento se somou a esse caldo: o samba.

O álbum — que completa três décadas — colocou samba e funk em diálogo direto e trouxe faixas que se tornariam marcos da carreira, como A Lata, Veneno da Lata, Garota Sangue Bom e Brasil é o País do Suingue. O próprio título condensava múltiplos sentidos: o metal barato e versátil, a franqueza do “dizer na lata” e a gíria associada à maconha de “boa qualidade”, numa referência irônica a um episódio real ocorrido no litoral carioca nos anos 1980.

Entre os parceiros do disco, destaca-se Fausto Fawcett, com quem Fernanda já tinha afinidade antes mesmo de estrear em carreira solo. A parceria renderia mais tarde a canção Rio 40 Graus, apresentada no álbum Sla 2 Be Sample. “Ele é genial, completamente fora da curva do que a gente costuma ver em letristas”, diz a cantora, destacando o olhar singular de Fawcett sobre a vida urbana.

Esse olhar dialoga com a própria leitura que Fernanda faz da cidade. “O Rio é um mini Brasil, no melhor e no pior. Tem uma beleza exuberante, como o país tem, mas ao mesmo tempo é caótico e profundamente desigual.” Para ela, essa contradição ajuda a explicar tanto a violência quanto o esforço cotidiano por algum otimismo. “A gente tenta se equilibrar para acordar de manhã com um certo sorriso no rosto.”

As comemorações pelos 30 anos de Da Lata incluem um documentário sobre o disco, que recupera o contexto político e social da época e deve circular por festivais de cinema em 2026. Também estão previstos um livro e o relançamento do álbum em vinil, além de shows comemorativos ainda neste ano.

Material inédito, porém, só mais adiante: o próximo disco — o primeiro desde Amor Geral — está previsto para 2027.

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