dolares americanos

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, indicou nesta sexta-feira (30) Kevin Warsh, ex-membro do Conselho de Governadores do Federal Reserve, para ser o próximo presidente do banco central estadunidense (Fed). Após o anúncio, o mandatário disse que seu indicado, “sem dúvida quer cortar as taxas de juros”. No entanto, ainda existem dúvidas se Warsh, um homem do mercado financeiro, vai mesmo acompanhar o desejo do mandatário.

O Brasil de Fato ouviu economistas que apontaram a preocupação de Trump com o mercado interno para esse desejo. Taxas de juros mais baixas tornam o crédito mais barato, o que incentiva o consumo e o investimento, impulsionando assim a atividade econômica e, de alguma maneira, amplia as tarifas, compensando as perdas com o tarifaço das exportações.

Desde que retornou à presidência há um ano, Trump tem entrado em conflito direto com o atual presidente do Fed, Jerome Powell, cujo mandato termina em maio, por exigir a redução das taxas de juros. Assim, como no Brasil, as decisões do BC dos EUA são autônomas. Em sua última reunião esta semana, o Fed optou por manter as taxas de juros de referência inalteradas, na faixa de 3,50% a 3,75%.

“Trump quer baixar os juros e trabalha com a noção de que dólar fraco é bom, por acreditar que aumenta a produção interna. Isso turbina as tarifas que os EUA usam contra as exportações dos outros países”, disse Giorgio Shutte, da Universidade Federal do ABC.

“Essa é a lógica da política cambial adotada para a industrialização, foi feita pelo Brasil, pela China e agora pelos EUA”, diz ele.

“Claro que neste cenário o que você não consegue produzir internamente, se torna mais caro e gera inflação, o que também não convém ao Trump. O que ele quer do Banco Central são juros baixos para desestimular aplicações em dólar e estimular empréstimos mais baratos.”

Warsh precisa ainda ser aprovado pelo Congresso, o que não é pouco já que democratas acusam o presidente de interferência na autonomia do Fed e mesmo republicanos expressam reservas.

Kevin Warsh vem do mercado financeiro
Kevin Warsh vem do mercado financeiro | Crédito: KEVORK DJANSEZIAN / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP

Títulos da dívida

Há décadas os Estados Unidos financiam sua dívida interna que hoje bate em US$ 36 trilhões (R$ 190 trilhões). Para efeito de comparação, o PIB brasileiro foi de R$ 2,2 trilhões em 2024, emitindo e vendendo títulos do tesouro. Atualmente, cerca de um terço deles está no exterior, com Japão, China e Reino Unido possuindo os maiores montantes.

É comum o raciocínio de que os EUA quebrariam caso esses detentores de títulos os vendessem ao mesmo tempo. No dia 20, a Dinnamarca disse que venderia seus títulos que somam US$ 100 milhões, como resposta ao desejo de se apossar da Groenlândia – que é território dinamarquês. Tal medida foi vista por alguns como possível ferramenta para brecar os desmandos do magnata, mas a ideia não sobrevive a um olhar mais atento.

“Os países precisam colocar as suas reservas em títulos da dívida americana para ter acesso a dólares, exatamente para dar conta das suas transações”, diz Alexis Toríbio Dantas, do Departamento de Evolução Econômica da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Shutte diz ainda que “para países que têm reservas e títulos em dólar, como Brasil e China, um dólar fraco significa que suas riquezas também diminuem e aumentam as suas dívidas líquidas. Por isso que não faz sentido para a China vender seus títulos, ela estaria reduzindo sua riqueza.”

“Além disso, exceto a China, quem têm mais títulos são aliados próximos dos EUA, como Londres e Tóquio.”

Ambos os economistas olham com cautela para o movimento de desdolarização, defendido por muitos como alternativa para viabilizar um mundo mais multipolar. Embora mais transações de fato ocorram em outras moedas, em termos de arquietetura dos sistema financeiro internacional, isso não parece estar próximo de ocorrer.

“Desde a décade de 1970 se reclama do privilégio do dólar, mas nada muda porque não há alternativa na mesa. Naquela época, Nixon [presidente dos EUA entre 1969 e 1974] desvinculou a moeda do ouro, que poderia ser uma alternativa, mas obviamente não existe ouro suficiente no planeta para ocupar essa função”, afirma Shutte.

“A China não quer fazer isso porque significaria abertura para o mercado de capitais”, diz ele.

Para Toríbio Dantas, “a questão é que todos os países, de alguma maneira, ainda precisam muito do dólar, é a principal moeda de transação. Isso é garantia para os Estados Unidos, de que não vai haver uma demanda dos títulos da dívida, eles vão conseguir enrolar essa dívida”.

Um dos problemas desse cenário é que os EUA vêm usando cada vez mais sua moeda como arma contra outros países, como na aplicação de sanções, o banimento do sistema Swift – que controla as transações bancárias internacionais -, além das sanções à exportações, ferramenta favorita de Trump.

O que fazer então?

O economista sênior do Center for Economic and Policy Research (Centro para Pesquisa Econômica e de Políticas, em tradução livre), Dean Baker, disse à reportagem que há outras alterativas para as nações se defenderem dos ataques comerciais e financeiros de Trump.

“O caminho mais provável seria incentivar bancos e outras instituições financeiras, bem como empresas privadas e fundos de pensão, a se desfazerem de suas reservas em dólares. Isso provavelmente já está acontecendo em certa medida, visto que o dólar caiu mais de 10% desde que Trump assumiu o cargo.”

Se isso continuar a acontecer, ele diz que “empresas e indivíduos nos EUA provavelmente transferirão suas reservas para a Europa e outros lugares, à medida que a América de Donald Trump se torna cada vez mais uma aposta arriscada. Praticamente todos os outros principais mercados de ações do mundo superaram o mercado americano no último ano. É provável que isso continue, o que é um bom motivo para investir em outros lugares, mesmo por razões não políticas.”

“Mas há outras medidas que teriam impactio maior, sendo a mais óbvia deixar de respeitar as patentes e os direitos autorais dos EUA. Os Estados Unidos seguiram esse caminho contra a Alemanha nas duas guerras mundiais.”

“Essa medida também pode ser direcionada a empresas ou indivíduos específicos. Por exemplo, poderiam decidir não respeitar as patentes e os direitos autorais da empresa de software Oracle. O principal acionista da Oracle é Larry Ellison, que é uma das pessoas mais ricas do mundo e um grande apoiador de Trump. Ao contrário das tarifas, que encarecem os produtos para a população interna, ignorar patentes e direitos autorais os torna mais baratos.”

“Em qualquer caso, se as guerras comerciais se intensificarem, eu esperaria que outros países fossem muito além de uma simples retaliação tarifária e adotassem medidas mais rigorosas.”

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