Carne: o que as cotas da China e do México significam para o BR?
A China e o México decidiram recentemente limitar a importação de carne bovina com a criação de cotas. A medida pode afetar o Brasil, que é o maior exportador do mundo e tem os dois países entre seus principais clientes.
As mudanças foram as seguintes:
China — neste ano, o Brasil poderá vender até 1,1 milhão de toneladas com a taxa atual de importação, de 12%, paga pelas empresas chinesas que comprarem a carne. O que exceder terá uma sobretaxa de 55%. A China é o principal cliente da carne brasileira e comprou cerca de 1,6 milhão de toneladas em 2025.
México — empresas do país poderão comprar até 70 mil toneladas de carne bovina do exterior sem imposto. O que ultrapassar esse limite será taxado em 20%. Até o anúncio, feito na última segunda-feira (5), não havia tarifa. O México foi destino de 113 mil toneladas da carne do Brasil em 2025.
Carne bovina
Tiago Morheto via Pexels
➡️ Afinal, quais podem ser os efeitos dessas limitações para o agro e para os consumidores brasileiros? Vai aumentar a oferta de carne no país?
A inflação das carnes no Brasil acumulava 5% de alta em 12 meses, de acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de novembro.
Para economistas ouvidos pelo g1, a tendência para este ano é de que os preços se mantenham elevados, pelos seguintes motivos:
o Brasil vai abater menos gado em 2026, por causa do ciclo pecuário (saiba mais ao fim da reportagem);
eleições e Copa do Mundo podem manter a demanda pela carne em alta no mercado brasileiro;
mesmo com as novas limitações, as vendas para a China devem seguir com volumes altos porque o país não tem como suprir o consumo só com a produção local e o Brasil tem um preço muito competitivo;
ainda que haja redução das exportações, o que deixar de ir para China e México poderá ser realocado para outros países, como os EUA, que suspenderam recentemente o tarifaço.
Veja os maiores compradores da carne brasileira em 2025
Kayan Albertin/g1
Queda nas exportações não é certa
Entre as duas medidas restritivas, a cota definida pela China é a que mais preocupa analistas ouvidos pelo g1.
“A cota foi bem dura, mais ou menos umas 600 mil toneladas menor do que exportamos no ano passado”, analisa Cesar Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA.
No entanto, essa cota vai aumentar gradualmente ao longo dos três anos de validade da medida, lembra Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador da área de pecuária do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP.
Ele entende que não existe garantia de que outros países consigam suprir o mesmo volume que o Brasil destina para o país asiático. Nem a própria China.
“A China pode estar dando um tiro no pé, porque a nossa carne é a carne mais barata”, diz Carvalho.
O governo chinês implementou as cotas depois de iniciar uma investigação para entender se as importações estavam prejudicando o mercado doméstico de carne bovina.
“A produção [chinesa] cresceu, mas a importação cresceu mais. O consumo, a proporção da importação aumentou. Isso obviamente incomoda quem produz lá na China. Então, até para acenar para o produtor local, eles fizeram essa investigação e tomaram essa decisão”, explica Castro.
Mas ele destaca que a produção bovina leva tempo para crescer e atingir uma produtividade competitiva. Por isso, neste primeiro momento, os chineses podem não dar conta da demanda. E, assim, as cotas poderão causar inflação no país asiático.
“(Haverá) Uma grande escassez de carne lá, porque os outros países não conseguiriam competir (com o Brasil)”, diz Castro.
Já o México, que é um mercado ligado aos EUA, tem uma menor dependência de importação.
Contudo, os rebanhos mexicanos diminuíram por causa da contaminação da bicheira do Novo Mundo, que se alimenta da carne viva dos bois. A doença mortal é disseminada por moscas.
“[A doença] tem sido preocupante até para os EUA, porque eles são grandes vendedores de gado vivo também para o México”, afirma Castro.
Por esta razão, o analista acredita que faria sentido os mexicanos diversificarem seus fornecedores.
Para onde a carne brasileira pode ir
Sem o tarifaço, os EUA são um dos principais destinos em potencial para a carne brasileira que deixaria de ser comprado pela China, aponta Castro, do Itaú BBA.
O primeiro motivo é que a carne continua cara nos supermercados americanos e a produção do país segue em queda. Os EUA têm atualmente o menor rebanho desde a década de 60, relata Carvalho, da Esalq.
O gerente do Itaú BBA lembra ainda que outros países que são grandes exportadores de carne, como o Uruguai, podem precisar do produto para seu mercado interno e, portanto, comprar mais do Brasil.
Isso já vem acontecendo com a Argentina, que importou 20 vezes mais carne brasileira entre janeiro e outubro de 2025, na comparação com o mesmo período do ano anterior, como mostrou o g1.
Existe ainda a expectativa de abertura de novos mercados, como o Japão. Porém, Castro acredita que, se o país asiático se abrir para a carne brasileira, não comprará grandes volumes imediatamente.
“Há 20 anos o Brasil negocia e, sempre que inicia o comércio, os japoneses são bem cautelosos. Não deve chegar muito forte, se chegar”, afirma Castro.
Para ele, o melhor caminho é ampliar os mercados que já são consumidores, como as Filipinas.
Já Carvalho, da Esalq, entende que é importante ampliar a cartela de clientes, para diminuir a dependência de grandes compradores, como a China.
Castro, do Itaú BBA aponta que o Brasil deveria negociar com os outros países que vendem para a China para pegar parte de suas cotas. O governo já sinalizou que deverá tentar esta estratégia.
Isso porque a China criou um limite específico para cada um dos seus principais fornecedores. O Brasil ficou com o maior volume, mas ainda abaixo do que vendeu para a China em 2025. Os demais têm cotas ligeiramente acima do que venderam para aquele mercado.
Veja as cotas anuais por país (por mil toneladas)
Produção menor no Brasil
Além de não ser certo que as exportações de carne vão diminuir por conta das limitações da China e do México, os preços devem continuar elevados no Brasil em 2026 principalmente por causa da queda esperada na produção.
A explicação está no momento atual ciclo pecuário, que é de alta. Ele funciona assim:
alta do ciclo — quando há uma expectativa de alta nos preços do bezerro, os pecuaristas, em vez de abater as vacas, preferem mantê-las nas fazendas, para reprodução. Isso provoca um aumento nas cotações dos bovinos (boi gordo, bezerro, novilhas, boi magro, vaca gorda, etc.);
baixa do ciclo — quando as projeções do preço do bezerro começam a cair, um volume maior de fêmeas é encaminhado para os abates. Isso amplia a quantidade de carne no mercado, gerando uma queda nas cotações dos bovinos.
Castro, do Itaú BBA, afirma que, apesar de a previsão ser de mais oferta de bovinos no primeiro semestre deste ano, é provável que haja mais exportações nesse período, para preencher as cotas.
Já no segundo semestre, ainda que as vendas para o exterior percam ritmo, a oferta de bovinos deve ser menor. “Então, a gente continua trabalhando aqui com preços, na média, um pouco mais elevados”, conclui.
Carvalho concorda que os preços da carne bovina deverão se manter no patamar de 2025. E pontua que o próprio mercado interno terá demandas mais altas, motivadas por eventos como as eleições e a Copa do Mundo.
Carne bovina
Foto de David Foodphototasty na Unsplash
Carne bovina
Emerson Vieira/Unplash
Carne
Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil
Apreciadores de carne bovina têm à disposição uma variedade de cortes especiais de carne
Divulgação
Como vai ficar o preço da carne bovina em 2026
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