Os esforços na ONU para reviver solução de dois Estados para conflito palestino-israelense – CartaCapital

O secretário-geral da ONU, António Guterres, denunciou, nesta quinta-feira 28, “um catálogo de horrores sem fim” em Gaza, onde a Defesa Civil local reportou pelo menos 40 mortos em ataques israelenses ao longo do dia.

Enquanto o exército de Israel se prepara para tomar a Cidade de Gaza, as associações de ajuda humanitária presentes no local alertam sobre as consequências desta nova campanha militar no território palestino, onde a maioria de seus dois milhões de habitantes foi deslocada pelo menos uma vez desde o início do conflito.

“Gaza está cheia de escombros, cheia de corpos e cheia de exemplos do que poderia constituir graves violações do direito internacional”, declarou Guterres à imprensa, pedindo que os responsáveis sejam levados à justiça.

Imagens da AFP mostraram, nesta quinta-feira, enormes nuvens de fumaça sobre o céu da Cidade de Gaza, após Israel bombardear localidades do principal centro urbano da Faixa.

“Houve explosões a noite toda. Eu fiquei ferida, meu marido foi atingido por estilhaços e meu filho também sofreu ferimentos na cabeça”, disse à AFP Aya Daher, uma deslocada do bairro de Zeitun, que não tinha abrigo e esperava “a misericórdia de Deus” sentada do lado de fora de um hospital local.

No centro de Gaza, era possível ver filas de pessoas fugindo para o sul a pé, em carroças puxadas por burros ou em veículos lotados.

‘Deslocar a população para o sul’-

Também nesta quinta-feira, a Defesa Civil de Gaza afirmou que os ataques e disparos israelenses “desde o amanhecer” causaram a morte de pelo menos 40 pessoas.

Questionado sobre o assunto, o exército israelense respondeu que precisava de horas e coordenadas precisas para investigar os eventos.

Em um comunicado em separado, a força afirmou que suas tropas estavam agindo contra “organizações terroristas em toda a Faixa de Gaza”.

Devido às restrições impostas por Israel aos meios de comunicação em Gaza e às dificuldades de acesso no local, a AFP não pode verificar de forma independente as declarações da Defesa Civil ou do exército israelense.

O exército declarou, nesta quinta, que esta se preparando para “ampliar as operações contra [o movimento islamista palestino] Hamas na Cidade de Gaza”.

O Cogat – organismo do Ministério da Defesa israelense responsável pelos assuntos civis nos territórios palestinos – informou que esta realizando preparativos “para deslocar a população para o sul a fim de protegê-la”.

De acordo com a ONU, quase um milhão de pessoas vivem atualmente na região administrativa de Gaza, que inclui a Cidade de Gaza e seus arredores.

O ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, integrante do Partido Sionista Religioso, de extrema-direita, pediu, nesta quinta, ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu que inicie a anexação da Faixa de Gaza, caso o Hamas continue se recusando a depor as armas.

O Hamas, que governa Gaza, condenou “o apoio aberto à política de deslocamento forçado e limpeza étnica” do povo palestino.

‘Ponto de ruptura’

A Faixa de Gaza chegou a um “ponto de ruptura”, declarou, por sua vez, a diretora do Programa Mundial de Alimentos (PMA), Cindy McCain, após uma visita.

A Classificação Integrada de Segurança Alimentar (IPC), uma entidade apoiada pela ONU, declarou estado de fome extrema em Gaza na semana passada e o Escritório de Assuntos Humanitários da ONU apontou “a obstrução sistemática de Israel”.

Israel, que acusa o Hamas de saquear a ajuda fornecida pelas Nações Unidas, impôs um bloqueio total a Gaza entre março e maio.

Fila de crianças palestinas que esperam por comida em Gaza.
Foto: Mahmud HAMS / AFP

Desde a suspensão parcial do bloqueio, Israel delegou a distribuição de alimentos à Fundação Humanitária de Gaza (GHF), apoiada pelos Estados Unidos, mas criticada pela ONU e pelas principais ONGs por supostamente servir a objetivos militares israelenses e violar princípios humanitários básicos.

As distribuições de ajuda da GHF produziram cenas caóticas, com o exército israelense atirando em várias ocasiões na tentativa de conter centenas de palestinos desesperados.

Especialistas em direitos humanos da ONU manifestaram sua preocupação, nesta quinta-feira, sobre os relatos de “desaparecimentos forçados de palestinos famintos” que buscavam comida em locais de distribuição gerenciados pela GHF.

Os sete especialistas independentes classificaram esses relatórios como “um crime hediondo”, enquanto a fundação declarou que não há evidências disto.

O conflito foi desencadeado pelo ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, durante o qual militantes islamistas mataram 1.219 pessoas, na maioria civis, segundo uma contagem baseada em dados oficiais.

Em Gaza, as ações de represália israelenses mataram 62.966 pessoas, na maioria civis, segundo dados do Ministério da Saúde do território palestino – governado pelo Hamas –, considerados confiáveis pela ONU.

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