Borbulhas, sangue e marketing  – CartaCapital

Quando o relógio marcou a meia-noite em 1º de janeiro e o espocar da rolha ecoou, reencenamos séculos de engenharia política, logística de guerra, revoluções industriais, paranoia aristocrática e marketing. O champanhe é um produto que sobreviveu à queda de reis, à ascensão da burguesia e a duas guerras mundiais para se tornar o símbolo universal da celebração.

Tudo começa na França, com a geografia. Quando Clóvis, o primeiro rei dos Francos, foi batizado em Reims no ano de 496, a cidade tornou-se o palco obrigatório das coroações francesas por séculos. Por uma questão de logística medieval, o vinho servido nesses banquetes era o local. No entanto, é crucial notar: aquele não era o champanhe que conhecemos. Era um vinho tranquilo (sem gás), muitas vezes turvo, rosado e instável.

Durante séculos, beber o vinho de Reims era o equivalente litúrgico a participar da própria monarquia. A consagração mundial, no entanto, veio com a técnica: quando se descobriu que aquele terroir frio era perfeito para “domar” as borbulhas, a cidade deixou de ser apenas o palco dos reis para se tornar a capital definitiva da Champagne.

A transformação do vinho sagrado em ícone de luxo moderno exigiu revoluções paralelas: técnica, burocrática e social. A técnica foi uma questão de física e sobrevivência. O gás carbônico aprisionado na fermentação gera uma pressão interna de cerca de seis atmosferas — bem mais que a da calibração de um pneu de carro. Por muito tempo, isso foi incontrolável: as garrafas frágeis estilhaçavam sozinhas nas adegas, ferindo trabalhadores e dizimando estoques (o que lhe rendeu a alcunha de “vinho do diabo”). 

Os produtores perdiam rotineiramente entre 20% e 90% de suas garrafas devido a explosões na primavera. A comercialização em massa só se tornou viável quando a indústria desenvolveu garrafas de vidro espessas o suficiente para impedir a explosão. Abriu-se o caminho para o transporte e a venda global.

A revolução burocrática veio com uma canetada real. Até o início do século XVIII, o vinho só podia ser transportado em barris, o que impedia qualquer efervescência natural. Foi um decreto de 1728, assinado por Luís XV, que autorizou o transporte em garrafas de vidro. Essa mudança legal foi um gatilho. A tecnologia venceu o medo.

Uma das que capitalizaram a novidade foi Madame de Pompadour, amante e conselheira de Luís XV. A bebida era mais que uma garrafa. Em seus bailes mascarados, onde milhares de rolhas estouravam, ela consolidou a ideia de que a abundância de espuma era sinônimo de poder e beleza. “O champanhe é o único vinho que deixa a mulher bonita depois de beber”, disse ela, segundo o livro A Viúva Clicquot, de Tilar J. Mazzeo.

Quando a Revolução Francesa mudou a geopolítica mundial do poder e cabeças de reis rolaram, grandes cozinheiros da corte ficaram desempregados. Nasceram assim os restaurantes públicos modernos, chefs e os bares. A burguesia ascendente, munida de dinheiro, queria comer e beber como os reis depostos. O champanhe, agora produzido em escala graças aos avanços na fabricação de vidro resistente, tornou-se um luxo que havia deixado os palácios fechados para ganhar os salões barulhentos da vida pública.

Napoleão Bonaparte entendeu esse novo mundo. Amigo pessoal de um dos mais importantes proprietários de terras na Champagne, ele fez com que a bebida deixasse de ser o vinho da unção divina para ser o combustível da conquista militar. “Nas vitórias é merecido, nas derrotas é necessário”, dizia.

A globalização da marca veio, ironicamente, da derrota de Napoleão e seu bloqueio continental (cuja influência chegou até o Brasil, com a vinda da família real em 1808). Em 1814, com a França invadida, a Viúva Clicquot viu as tropas russas saquearem suas caves em Reims. Em vez de resistir, teria dito: “Deixem-nos beber. Eles bebem hoje, pagarão amanhã”. Pagaram.

Pouco tempo depois, Clicquot furou o bloqueio e enviou navios carregados para São Petersburgo. A obsessão russa foi tamanha que moldou o design industrial da bebida. Em 1876, o Czar Alexandre II, paranoico com atentados, exigiu que a casa Louis Roederer criasse uma garrafa exclusiva: feita de cristal transparente (para ver o veneno) e com o fundo plano (para evitar que uma bomba fosse escondida na concavidade). Nascia a Cristal, uma das marcas de borbulhas mais famosas do mundo.

O glamour chegou à literatura. Gustave Flaubert descreveu-o em Madame Bovary. Quando nasce a filha de Emma, a cerimônia religiosa na igreja parece insuficiente para as aspirações sociais da família. Em um jantar posterior, o avô da criança a “batiza” despejando um copo de champanhe sobre sua cabeça. O champanhe tornava-se o marcador definitivo de quem ascendeu na vida.

No final do século XIX, foi a vez da engenharia pesada. A Rainha Vitória, em 1891, ao lançar o navio HMS Royal Arthur, substituiu o tradicional cálice de vinho ou conhaque por uma garrafa de champanhe estourada contra o casco de aço. A bebida tornava-se o símbolo da modernidade tecnológica.

O século XX apenas refinou o mito. Winston Churchill defendeu a bebida com o mesmo fervor com que defendeu Londres. “Lembrem-se, cavalheiros, não é apenas pela França que lutamos, é pelo Champanhe!”, dizia ele, amante da marca Pol Roger. Na Guerra Fria, James Bond nos ensinou que a etiqueta é uma arma: beber Dom Pérignon na temperatura errada (acima de quatro graus, como ele corrige em Goldfinger) era um crime tão grave quanto a vilania internacional ou ouvir Beatles sem fone de ouvido.

O estouro da rolha é o som da história acontecendo.

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