
“Aqueles que torturam os próprios semelhantes são agentes do demônio.”
— Dom Oscar Romero
Quanto mais os segredos dos arquivos Epstein são revelados, mais nos damos conta da hipocrisia da ultradireita.
Aqueles que acusavam os comunistas de “comerem criancinhas” são os que, na verdade, as violavam, numa rede de abuso e exploração sexual que já levou à cadeia o ex-príncipe Andrew, da Inglaterra; um ex-primeiro-ministro da Noruega; e levou a princesa-herdeira da Noruega a pedir desculpas.
Nos Estados Unidos da América, Trump vem seguindo o modelo de Netanyahu: para se esquivar de seus crimes, faz a guerra, o que tende a amalgamar a opinião pública e dificultar o julgamento pela justiça comum. Entretanto, isso tem limites — como dolorosamente descobriram os militares argentinos ao tentarem recuperar as Malvinas e, dessa forma, enterrarem os cadáveres insepultos das centenas de milhares de pessoas assassinadas na “guerra suja”.
Criminoso comum, acusado de ter recebido propinas (joias, relógios de ouro, entre outras benesses) — assim como Bolsonaro —, Bibi Netanyahu preferiu cometer um genocídio em Gaza e atacar o Líbano, a Síria, o Irã e a Cisjordânia, com o intuito principal e pessoal de livrar-se do julgamento e da cadeia. Aliás, o juiz israelense encarregado do caso morreu recentemente em “acidente de trânsito”…
Vale notar que Epstein era, supostamente, agente do Mossad, o serviço secreto de Israel.
Sem minimizar a gravidade dos crimes aparentemente cometidos por Trump e, certamente, por Epstein — que vão da pedofilia à espionagem internacional —, a cultura masculinista precisa urgentemente ser tratada como a doença mental que realmente é.
Sem isso, não veremos o fim do feminicídio e de todo tipo de agressão contra mulheres e a população LGBTQIAPN+.
Vale notar que as próprias políticas armamentistas promovidas pela extrema direita inserem-se nesse contexto de masculinidade tóxica.
De fato, não é por acaso que o órgão masculino, na gíria, é chamado de “pistola”.
A insegurança masculina já não beira o patológico. Os índices absurdos de feminicídio demonstram, tragicamente, que esse limite foi há muito ultrapassado — em grande parte pela cultura masculinista da extrema direita e suas inconsequentes políticas armamentistas.
Um dado assustador que muitas mulheres desconhecem: grande parte dos homens não lava as mãos após usar o banheiro. Provavelmente porque acreditam serem seus membros tão importantes que não comportam associação a qualquer tipo de sujeira.
Somos sociedades fálicas. O simbolismo está por toda parte. Quem conhece Roma pode entender perfeitamente de onde isso veio e como os obeliscos fálicos — espalhados por toda a cidade — estão diretamente ligados à ideia de conquista, império e subjugação.
Nesse sentido, Trump e Bolsonaro são almas gêmeas. A extrema-direita tem uma cartilha única, inclusive — e principalmente — no plano simbólico.
Sobre esses valores embolorados, vale citar a questão do ciúme, visto por muitos homens como sinal de fraqueza, de fragilidade, que os conduz, muitas vezes, ao limite do desespero e da inconsciência. Por isso, não conseguem encará-lo de forma positiva — como parte e sombra do amor —, uma vez que desejar ser o objeto único do desejo da pessoa amada integra a experiência amorosa.
Pior: os homens temem imensamente a exposição. Porém, como amar sem se expor?
Amor e sigilo não combinam. São inconciliáveis.
Ao contrário, muitas mulheres conseguem falar de seus relacionamentos sem se sentirem em posição de inferioridade, despindo-se com maior facilidade dos nefastos jogos de poder.
Talvez os homens julguem demais, embora projetem a culpa nas mulheres, como vemos nos arquétipos de Adão e Eva.
Importante notar que, segundo o livro do Gênesis, Deus lhes proibira comer da árvore do julgamento (comumente traduzida como do “conhecimento”), o que fizeram, induzidos pela serpente — símbolo de nossas sombras —, tentando igualar-se ao divino.
O mito grego de Ícaro vai no mesmo sentido: ao tentar ascender ao céu, morada exclusiva dos deuses, suas asas de cera são derretidas pelo calor do próprio Sol.
Notemos que o Papa Francisco, verdadeiro profeta, ao ser inquirido por uma jornalista brasileira sobre as relações homoafetivas, respondeu literalmente: “Quem sou eu para julgar?”
Reverte, portanto, a pretensão ilusória dos humanos de se julgarem capazes de condenar seus semelhantes. Como Cristo, abriu mão da condição de infalibilidade para salvar e redimir os mais oprimidos pelos julgamentos dos hipócritas.
Em Um Deus que dança (Editora Paulinas), José Tolentino Mendonça propõe uma bela oração:
“Faz-nos trilhar, Senhor, a estrada da misericórdia. Dá a cada um de nós a capacidade de acolher apenas, sem juízos prévios nem cálculos. Dá-nos a arte de acolher o trêmulo, o ofegante, o frágil modo com que a vida se expressa. Torna-nos atentos ao desenho silencioso e áspero dos dias, à dor profunda e, porém, quase anônima a nosso lado; ao grito sem voz; às mãos que se estendem para nós sem as vermos; à necessidade que nem encontra palavras.”
Aos símbolos fálicos, tentemos contrapor os receptivos, femininos, livres de pressupostos egocêntricos. Quem sabe assim chegaremos ao equilíbrio que poderá nos conduzir ao fim dos feminicídios.
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
