Manifestação pelas ruas de Caracas contra ataque imperialista dos Estados Unidos

Um dia depois de Trump afirmar que os Estados Unidos devem administrar diretamente a Venezuela em um governo de transição, uma fonte do gabinete Trump ouvida em off pela reportagem da rede NBC afirma que o presidente estadunidense já haveria, inclusive, indicado quem deve governar o nosso vizinho sul-americano. Os nomes incluem o secretário de Estado Marco Rubio, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, o diretor da CIA John Ratcliffe e o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller.

Nenhum nome venezuelano foi citado e inclusive a oposicionista Maria Corina Machado teria sido descartada definitivamente. Como a mídia corporativa é especialista em servir à desinformação por meio do uso indiscriminado da fonte oculta, via o recurso da declaração “em off”, é aconselhável manter a cautela com esse tipo de informação, que mais parece a disseminação de um falso ato consumado.

Porém, em contraste com essas declarações estadunidenses e uma avalanche de fake news e teorias conspiratórias que circulam por todos os meios, o fato é que depois da invasão, bombardeios a alvos estratégicos de Caracas e suas imediações e do sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cília Flores, na madrugada de 3 de janeiro, e sua exibição como prêmio de guerra na televisão ao desembarcar algemado em aeroporto de Nova Yorque, as instituições do Estado venezuelano estão preservadas. Mais do que isso, a unidade cívico-militar venezuelana, pilar do regime bolivariano, está de pé.

Na esfera civil, o Tribunal Supremo de Justiça, em sua Sala Constitucional, em pronunciamento conjunto transmitido pela televisão aberta e em documento assinado pelos magistrados, na tarde do próprio dia 3, interpretou os artigos 234, 239 e 335 da Constituição Bolivariana da Venezuela, bem como o artigo 5 da Lei Orgânica do TSJ. No exercício de suas competências, afirmou que o país está sob uma situação excepcional, atípica e de força maior. E que, diante do sequestro do presidente constitucional Nicolás Maduro, em consequência desse fato, ordenou que a vice-presidenta, Delcy Rodríguez, assuma e exerça, em condição de encarregada, todas as atribuições, deveres e faculdades inerentes ao cargo de presidenta da República com a finalidade de garantir a continuidade administrativa e a defesa integral da nação.

Manifestação da Força Armada Nacional Bolivariana

Na esfera militar, muito importante neste contexto, uma plena subordinação ao comando civil está preservada. Na tarde de hoje, 4 de janeiro, a Força Armada Nacional Bolivariana, em manifestação transmitida pelo canal Telesur e em documento assinado pelo General em Chefe, Vladímir Padrino López, rechaçou contundentemente o covarde sequestro do presidente Constitucional e Comandante em Chefe, Nicolás Maduro Moros, e de sua esposa, Cília Flores, e declarou obediência à ordem do TSJ, reconhecendo Delcy Rodríguez como encarregada da Presidência da República.

Além disso, López afirmou respaldar plenamente o Decreto de Estado de Comoção Exterior em todo o território nacional e que empregará todas suas capacidades para a defesa militar, a manutenção da ordem interna e a preservação da paz. Ele declara, ainda, a ativação da fusão popular militar policial, colocando-a em cumprimento operacional para enfrentar a agressão imperial como um só corpo de combate para assegurar a liberdade, independência e soberania da nação.

Em resposta a reação institucional, a população venezuelana acudiu em massa para a avenida Urdaneta, nas imediações do Palácio Miraflores, no dia de hoje. Ali foi instalada uma “tribuna anti-imperialista”, reagindo ao que consideram ser uma tentativa de quebrar o moral da Revolução Bolivariana. Ontem (3), atendendo a um chamado do ministro Diosdado Cabello, a população se manteve em casa e fazendo vigilância popular das esquinas de Caracas. Hoje, em ordem, atendem ao chamado dos deputados da Assembleia Nacional e se manifestam reivindicando pacificamente a liberdade do presidente Maduro e sua esposa.

Essas manifestações institucionais e populares devem ser interpretadas como evidência de que o governo bolivariano conta com legitimidade política interna, busca a via constitucional e está unido civil e militarmente. Além do mais, o conteúdo das manifestações do TSJ e da FANB explicitam uma disposição para preservar a independência, a soberania e a paz no país, além da solidariedade e exigência de retorno de seu presidente sequestrado.

Apoiadores do presidente venezuelano Nicolás Maduro exibem bandeiras da Venezuela após sequestro do mandatário pelos Estados Unidos.
Apoiadores do presidente venezuelano Nicolás Maduro exibem bandeiras da Venezuela após sequestro do mandatário pelos Estados Unidos | Crédito: Pedro Mattey/AFP

Principais causas para a invasão

É evidente que nenhum governo da América Latina, por mais independente que seja, tem condições de confrontar militarmente sozinho o maior poderio bélico do planeta, como são os EUA. Por outro lado, é importante compreender as contradições em curso no sistema mundial capitalista neste momento histórico. Há três causas imediatas principais para a invasão, bombardeio e sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, no último dia 3 de janeiro.

A primeira razão para o ataque consiste na urgência de apropriação por espoliação de mais de 300 bilhões de barris de petróleo venezuelano. A causa do ataque não reside evidentemente nem nas acusações de narcotráfico, nem na defesa da democracia e dos direitos humanos. Essa motivação seria apoiada pelas transnacionais estadunidenses e por Wall Street, que especula com o preço do petróleo e deve observar a valorização de ações de empresas do complexo industrial militar e das petroleiras.

A segunda razão para o ataque está orientada a evitar a efetivação do convênio China-Venezuela que passaria a vigorar em 2026. Os acordos preveem o fortalecimento da cooperação para exploração de gás natural e petróleo, participação de empresas chinesas na exploração de ouro, coltão e metais raros na Venezuela, a adesão da Venezuela no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) e investimentos bilaterais para proteger investimentos recíprocos e facilitar a operação de empresas chinesas no país. Esse acordo poderia consolidar uma influência que já é significativa da China na América Latina.

A terceira razão tem caráter simbólico para o conjunto dos governos da América Latina e diz respeito a escolha da data de 3 de janeiro. Neste mesmo dia, há 36 anos, os EUA intervieram no Panamá e capturaram o presidente Manuel Noriega. O objetivo de repetir a data seria enviar um recado claro aos demais governos latino-americanos no sentido de que ou se subordinam obedientemente, preservando relações de dependência aos EUA, ou sofrerão destino igual ao venezuelano. O recado seria destinado especialmente a México, Colômbia e Brasil, uma vez que Cuba já é alvo de ataques e bloqueios há mais de 60 anos.

A violência e ilegalidade dos atos perpetrados contra Venezuela podem, portanto, em vez de expressar uma demonstração de força dos EUA, contraditoriamente, evidenciar fragilidade do imperialismo estadunidense frente a emergência de uma ordem multipolar. Como sabemos, no capitalismo, a guerra tem no lucro o seu principal objetivo. Mas também a garantia das relações de poder que afiançam os lucros.

Neste contexto ainda incerto e perigoso onde há risco real de novos ataques dos EUA, a reação com medidas concretas de apoio ao governo constitucional da Venezuela por parte dos Brics é fundamental. É preciso ir além de declarações formais. Mais do que nunca é preciso afirmar uma nova ordem mundial multipolar baseada no respeito à soberania dos povos e sua autodeterminação, transferência de tecnologia sem condicionalidades, financiamento ao desenvolvimento com base em parâmetros favoráveis aos povos, à cooperação e à paz internacional.

É por isso que os brasileiros e brasileiras devemos posicionar-nos firmemente em defesa da soberania venezuelana e apoiar o governo federal para que exerça uma diplomacia ativa e altiva em favor da emergência dessa nova ordem multipolar de modo concreto. O ataque à Venezuela pode acelerar as medidas para essa transição. Com uma resposta internacional contundente e coesão interna na Venezuela é possível que esse ataque leve a um enfraquecimento do imperialismo estadunidense, abrindo um horizonte de possibilidades novas para os povos viverem em paz. E, no caso do Brasil, afaste o risco de novas investidas a nossa soberania e democracia mais breve do que podemos imaginar.

* Historiadora e Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

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