A mesa de Verissimo – CartaCapital

O churrasco, prato típico gaúcho e tão presente nas páginas do pai, Erico, aparecia de vez em quando em seus textos. Mas em casa não era Luis Fernando Verissimo quem cuidava do fogo nem da seleção de cortes. Brincava que não sabia “nem colocar a carne no espeto”. As carnes ficavam sob os cuidados da companheira de vida, Lucia, carioca que, em 1963, teve apenas cinco minutos para responder ao pedido de casamento, que durou 62 anos. Verissimo faleceu neste sábado 30 por complicações de uma pneumonia.

Quando uma pesquisa científica revelou que o ovo não fazia mal, Verissimo transformou a descoberta em crônica que acabou publicada na revista da Sociedade Brasileira de Cardiologia: “[…] E agora estão dizendo que foi tudo engano, o ovo é inofensivo. O ovo é incapaz de matar uma mosca. A próxima será que o bacon limpa as artérias. Sei não, mas me devem algum tipo de indenização. Não se renuncia a pouca coisa quando se renuncia a ovo frito. Dizem que a única coisa melhor do que ovo frito é sexo. A comparação é difícil. Não existe nada no sexo comparável a uma gema deixada intacta deixada em cima do arroz depois que a clara foi comida, esperando o momento do prazer supremo, quando o garfo romperá a fina membrana que a separa do êntase e ela se desmanchará, sim, se desmanchará, e o líquido quente e viscoso correrá e se espalhará pelo arroz como as gazelas douradas entre lírios de Gilreade nos cantares de Salomão, sim, e você levará o arroz à boca e o saboreará até que o último grão molhado, sim, e depois ainda limpará o prato com o pão. Ou existe, e eu é que tenho andado na turma errada.”

Comer e beber rimavam com viagens, especialmente para uma cidade que adorava ir frequentemente. Aos 22 anos, em 1959, Verissimo pisou pela primeira vez em Paris, acompanhado dos pais. Passou um mês na Cidade Luz — e daquela temporada uma cena nunca lhe saiu da memória: o impacto de sair do subterrâneo do metrô e dar de cara com a imponente Champs-Élysées. “A sensação de estar numa ideia diferente de cidade e de civilização”, recordaria em entrevista a Chico Buarque em 2016.

Sempre que podia, voltava a Paris. Perdido entre as estantes da livraria Galignani, na Rue de Rivoli, sobretudo na seção de livros em inglês; em exposições de museus ou caminhando pelas galerias parisienses. E, claro, sempre reservava espaço para os prazeres da mesa. Um de seus endereços preferidos era o restaurante Laurent, na parte ajardinada da Champs-Élysées — a mesma que o arrebatara na juventude.

“Não sei se tem três estrelas, mas merecia seis: o Laurent, na Avenue Gabriel. Não há melhor programa em Paris do que almoçar no seu terraço, desde que haja sol e a temperatura permita. A pedida é salada de lagosta, um peixe branco e um Sancerre sincero”. Também gostava de jantar no L’Astrance, do chef Pascal Barbot, e no clássico bistrô Chez Georges.

O vinho, que só entrou com força em sua vida a partir dos anos 1990, quando a rotina de trabalho melhorou os rendimentos, então se tornou companheiro de refeições. Tinha predileção por Bordeaux e, em particular, por Saint-Estèphe — denominação célebre da margem esquerda do Gironde, conhecida por tintos potentes e longevos.

Com a balança, o colesterol e a glicemia, travava batalhas frequentes, como muitos de nós. Mas nunca perdia o humor. Em A Mesa Voadora, confessou sua inveja por um personagem universal: o “come e não engorda”. “Ninguém é mais admirado ou invejado do que o come e não engorda. (…) Meu sonho é emagrecer e depois nunca mais engordar, por mais que tente. Quando eu diminuir, quero ser um come e não engorda.”

Nas sobremesas, sua indecisão era deliciosa. Em 2000, ao ser perguntado sobre o sentido da vida, não hesitou: “O sentido da vida é o pudim de laranja. O melhor prato do mundo é aquela tigela funda e larga em cima, que depois você inclina para pegar o caldo.”

Mas, em A Mesa Voadora, fez uma confissão ainda mais íntima: “Não resisto a doce feito com maçã, com ainda mais culpa. Não tem sido fácil conciliar a necessidade da dieta e do combate ao colesterol com a minha busca do apfelstrudel perfeito. Mas todos temos uma missão a cumprir neste mundo.”

Do churrasco em Porto Alegre às mesas de Paris, passando por vinhos, ovos fritos e tortas de maçãs carregadas de afeto, Verissimo mostrou que que a literatura, como a boa mesa, só se cumpre de verdade quando compartilhada e vivida. Verissimo deixa esposa, filhos, netos e uma legião de leitores.

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