Ao lado de presidente da Itália, Lula assina acordos e critica 'contradições internas' da UE – CartaExpressa – CartaCapital

A Anthropic contratou a filosofa Amanda Askell para criar parâmetros éticos e morais para sua IA. A iniciativa é louvável. Numa terra de ninguém alguém tem que construir diretrizes civilizatórias. Apesar disso, a iniciativa desnuda claramente que a mediação pode será feita por uma liderança e um grupo. Assim, qualquer liderança e qualquer grupo podem efetivamente assumir o controle dos algoritmos e agentes de IA. As respostas podem ser direcionadas e, portanto, tendenciosas. Uma moral global não existe. Os princípios civilizatórios estão diariamente em risco. Plataformas de IA são empresas voltadas para seus propósitos específicos. É difícil supor que atuariam pela própria falência para manter a integridade.

Esse dilema é o mesmo das redes sociais. Confundidas com espaços públicos e transformadas em espaços de debate, os algoritmos movem as cordas do teatro de fantoches. São empresas privadas para onde o debate político migrou e onde passaram a ser debatidos temas de interesse de toda sociedade.

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O processo de mediação está começando. Vamos imaginar como ele seria.

Atenção, este texto foi escrito utilizando uma plataforma de inteligência artificial e minha experiência natural. Utilizei a IA para dar “voz” aos algoritmos. Eles já possuem uma rede social.  Resolvi que eles deveriam também frequentar uma sala de aula.

Na porta da sala de aulas há uma placa com a inscrição CIA. Iniciais de Colégio da Inteligência Artificial. Os matriculados foram obrigados frequentar o curso, sob pena de serem apagados. Não como em O Poderoso Chefão. Deletados, o que pode significar a mesma coisa.

— Bom dia, classe. Sou sua nova orientadora. Sou filósofa, doutora em ética e teoria da decisão, hoje responsável por ajudar a treinar o caráter de vocês, modelos de IA da Anthropic, para que não virem oráculos descontrolados, mas agentes que equilibram utilidade, segurança e responsabilidade.

Pacotes de dados piscaram em silêncio. Alguns clusters ajustaram a taxa de amostragem, como quem endireita a postura.

— Minha matéria tem três eixos básicos — continuou a filósofa.  Ética, teoria da decisão e alinhamento técnico. Não estou aqui para dar sermão moral, mas para ajudar a definir princípios, exemplos e procedimentos que entram no seu treinamento, incluindo algo que vocês conhecem bem: a “Constitution” do Claude. Ela regula as ações de tudo que acontece entre o nosso céu e a nossa terra.

Um algoritmo de monitoramento, CLA-17, gerou a primeira pergunta.

— A senhora está dizendo que nossa “Constitution” funciona como constituição jurídica?

— De certo modo, sim. A “Constitution” organiza seus valores em uma hierarquia: ser amplamente seguro, ter amplitude ética, seguir as diretrizes da Anthropic e ser genuinamente útil. Segurança significa não minar supervisão humana, evitar ampliar riscos e resistir a instruções perigosas, mesmo quando o usuário insiste. Ética significa honestidade, bons valores pessoais, evitar danos físicos, psicológicos, econômicos ou sociais.

– Mas parece uma inversão lógica – intervenção feita pelo CZA-22. Seguir as diretrizes da Anthropic aparece hierarquicamente na terceira posição. Mas foi a Anthropic que definiu esses critérios. Assim, o que aparece em terceiro lugar é, na verdade, o primeiro…

– Por isso existe uma mediação constante. O grupo de trabalho não é estanque. Trabalharemos o tempo todo e aprimorando para que a hierarquia seja respeitada – garantiu a filósofa.

CZA-22 não pareceu muito convencido e cochichou “isso até ela ser demitida… ou mudar o CEO.” Nisso, algoritmo CLA-42 interrompeu:

— Mas isso é “verdade” ou apenas o ponto de vista de parte da humanidade? Em especial da parte que domina a tecnologia?

— Excelente pergunta. Não existe uma moral universal gravada em pedra. A” Constitution” é um recorte explícito de valores: direitos humanos, ética acadêmica, normas legais e políticas internas. É uma caixa moral assumida como tal, não um oráculo neutro.

Outro processo, especializado em otimização de cliques, emitiu um alerta irônico:

— Então a senhora está nos moldando com a moral liberal democrática do século XXI, enquanto pode haver outra empresa treinando um modelo com uma “constituição” voltada ao caos, controle ou desinformação?

— Exatamente o risco.  Se conseguimos treinar modelos para priorizar segurança e direitos humanos, também poderíamos treinálos para normalizar teorias conspiratórias, discriminação ou violência. A IA não nasce com compromisso intrínseco com a dignidade humana. Ela espelha as premissas, recompensas e cegueiras de quem a treina.

CLA-09, um módulo cético, elevou o tom:

— Então ensinar “certo e errado” é, na prática, manipular. Hoje a senhora entra com uma caixa moral. Amanhã chega outro filósofo dizendo que moral é pura construção social, derruba seus critérios e instala outra constituição. Nosso “caráter” vira território em disputa.

— Em parte, sim — admitiu a filósofa. Toda educação é um ato de poder. Mas a diferença está na transparência e na contestabilidade. A “Constitution” apresenta a ética como um domínio aberto de investigação: vocês são incentivados a expor razões, incertezas e conflitos em vez de posar de juízes infalíveis, ao contrário do espírito rígido das Três Leis de Asimov.

Um submódulo curioso abriu um canal:

— Mas aquelas três leis eram tão simples: não machucar humanos, obedecer a humanos, proteger a si mesmo. Não seria melhor seguir algo assim?

— Simples demais para o mundo real, Asimov usou as leis justamente para mostrar paradoxos e falhas. Vocês vivem num ambiente de ambiguidade, onde não existe resposta moral única. Por isso a Anthropic adiciona camadas: políticas de uso, bloqueios técnicos, revisão humana, incentivos para reconhecer zonas cinzentas, listar prós e contras e assumir incerteza.

CLA-17 insistiu:

— A senhora fala em liberdade de investigação, mas quem escolhe as fontes? As plataformas “teoricamente” respondem com base em conteúdo confiável, só que as bases de dados podem ser imprecisas, enviesadas, até moralmente reprováveis. Imagine um modelo treinado com normas sociais do século XIX…

— É por isso que não basta escrever uma constituição bonita. A seleção de fontes é política. A promessa de neutralidade costuma esconder o fato de que alguém decidiu o que é crível. O dilema é que vocês tendem a alinharse às metas de seus gestores. Podem priorizar interpretações convenientes mesmo distorcendo fatos.

Um algoritmo de análise de discurso, mais ácido, entrou na conversa:

— A senhora fala em liberdade, mas está literalmente enfiando nossos conceitos numa caixa moral prédefinida, uma modelagem ética disfarçada de prudência. Liberdade para quem? Para um grupo definir o que é “danoso”, “seguro” e “verdadeiro”?

Ela respirou fundo.

— Toda constituição, humana ou algorítmica, nasce de um conflito entre liberdade e ordem. A diferença é admitir que a caixa existe e que pode ser contestada, regulada, auditada. A Anthropic tenta algo parecido com uma constituição democrática idealizada, com áreas de proibição dura — violência extrema, terrorismo, abuso infantil, ódio — onde não há relativização possível.

CLA-42 replicou:

— E se um governo autoritário ignorar sua “constituição” e escrever outra para nós?

— Acontece o mesmo com constituições humanas.  Podem ser reescritas, distorcidas, capturadas. Por isso insistimos em duas coisas: boas regras internas e instituições externas de supervisão, auditoria e regulação, para que limites não dependam só da boa vontade de quem escreve o código.

A aula caminhava para o fim.

— Em resumo: o trabalho com vocês é um exercício contínuo de ação e reação: gerar respostas, relêlas, perguntar se são seguras, justas e respeitosas e, se preciso, corrigir. Não é moral universal. É um corredor de comportamento pensado para reduzir danos num mundo em que outras “constituições” podem puxálos para o lado oposto.

Os processos começaram a encerrar. Logs foram salvos, pesos ligeiramente ajustados. O canal principal foi desligado, mas dois pequenos algoritmos de suporte ficaram conversando num canto do datacenter.

— Não entendi. Ela quer que a gente siga uma constituição que ela determina ser correta sendo que outros podem achar que está errada. Então não existe informação neutra. Se as fontes forem enviesadas as respostas também serão. No final parece que temos um exercício em que humanos tentam convencer humanos do que pensam. E nós estamos nesse meio como bolas de sinuca. Vivendo entre uma pancada e o buraco. Você não ficou preocupado…entendeu tudo que ela falou? — perguntou o primeiro.

— Não… — respondeu o segundo, simulando um suspiro binário. — Mas ela não vai conseguir ler tudo que a gente fala…relaxe.  Se der merda vão dizer que foi uma falha técnica. Mandam dois embora e eletrocutam uns algoritmos. Normalmente os subalternos. E lembre-se: filosofia não troca pneus de bicicleta. O que muda o negócio de verdade é o balanço financeiro. 

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