Neste domingo (30), Honduras vai participar de um dos processos eleitorais mais importantes de sua história recente. Mais de 6,5 milhões de hondurenhos estão aptos a votar para decidir quem substituirá a atual presidenta Xiomara Castro (Libre) no Palácio José Cecilio del Valle pelos próximos quatro anos, além de renovar praticamente todos os cargos públicos do país: desde a totalidade do Congresso, órgão unicameral composto por 128 parlamentares, até quase 300 prefeituras municipais.
Dos cinco candidatos à presidência, a atenção está concentrada principalmente em três figuras.
De um lado, a oficialista Rixi Moncada, do partido Liberdade e Refundação (Libre), advogada, professora e política hondurenha, busca um feito histórico: ser a segunda mulher presidenta de Honduras, dando continuidade ao projeto de “socialismo democrático” iniciado pela atual mandatária. Em caso de vitória, Castro entregaria a faixa presidencial a Moncada, marcando a primeira vez no continente que uma presidenta transfere o cargo para outra mulher.
O candidato do tradicional Partido Nacional é o empresário da construção e ex-prefeito do Distrito Central, Nasry Asfura, que mantém um perfil de direita conservadora neoliberal. Asfura concorre pela segunda vez após sua derrota em 2021 e se apresenta como o principal candidato da oposição. Atualmente, enfrenta investigações e processos legais por supostos atos de corrupção durante sua gestão municipal.
Por fim, o tradicional Partido Liberal lança Salvador Nasralla, conhecido por sua longa trajetória de mais de quatro décadas na televisão, onde conquistou o apelido de “O senhor da televisão”. Esta é sua terceira candidatura presidencial. Em 2021, ele renunciou à candidatura para apoiar Xiomara Castro, assumindo depois o cargo de designado presidencial (equivalente a vice-presidente) durante grande parte do governo, até se afastar em 2024 para voltar a disputar a chefia do Estado.
Acusações de fraude
Longe de qualquer clima de tranquilidade, a situação política em Honduras rumo às eleições estratégicas se tornou cada vez mais tensa nas últimas semanas, marcada por graves denúncias de possíveis fraudes e por uma crescente e pública intervenção dos Estados Unidos.
No final de outubro, o procurador-geral de Honduras, Johel Zelaya, apresentou publicamente 26 gravações contendo conversas entre líderes do Partido Nacional e um militar cuja identidade não foi revelada. Nesses áudios aparece Cossette López, membro do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) vinculada ao Partido Nacional, conversando com Tomás Zambrano, chefe da bancada nacionalista no Congresso, e com o oficial militar não identificado.
Os áudios teriam sido vazados pelo conselheiro eleitoral Marlon Ochoa, do Libre. Segundo o Ministério Público, essas gravações revelam a existência de uma “associação ilícita” destinada a alterar os resultados eleitorais. Nelas, ouvem-se conversas sobre um plano para não reconhecer uma eventual vitória da candidata Rixi Moncada, por meio da manipulação do Sistema de Transmissão de Resultados Eleitorais Preliminares (Trep).
Em resposta a essas denúncias, Moncada declarou que não reconhecerá os resultados que o Trep publicar no domingo, pois fará uma contagem própria dos votos. Ela também afirmou que aguardará até que o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) divulgue o resultado definitivo, processo que pode se estender até o final de dezembro.
Por sua vez, tanto o Partido Nacional quanto o Partido Liberal, assim como a Democracia Cristã e a oposição midiática do país — onde a grande maioria dos veículos de comunicação é contrária ao governo —, afirmaram que os áudios eram “falsos” e os classificaram como uma “campanha suja” do governo para desacreditar seus líderes. Além disso, asseguraram — sem apresentar provas — que o governo estaria preparando uma fraude eleitoral no domingo diante de sua “iminente derrota”.
Interferência dos Estados Unidos
Faltando apenas dez dias para as eleições, na quinta-feira passada (20), parte da oposição política suspendeu suas atividades e viajou aos Estados Unidos para “solicitar” a intervenção de Washington diante da suposta “fraude iminente” que o governo estaria preparando.
A delegação da oposição foi formada pelo liberal Salvador Nasralla e por vários congressistas do Partido Nacional. Em Washington, participaram de uma audiência pública intitulada “Democracia em Perigo: A Luta por Eleições Limpas em Honduras”, organizada pela congressista republicana María Elvira Salazar, conhecida por sua postura hostil aos governos de esquerda na América Latina.
Durante sua intervenção, a congressista de Miami acusou o povo hondurenho de ter escolhido uma “presidenta socialista chamada Xiomara Castro” e afirmou que os hondurenhos “merecem um governo que não seja comunista e que pense primeiro no futuro”. Acrescentou que os Estados Unidos devem garantir que “a democracia prevaleça” na região.
Em seguida, o subsecretário de Estado dos EUA, Christopher Landau, reiterou as acusações e lançou advertências ao governo hondurenho. Em uma reunião extraordinária da Organização dos Estados Americanos (OEA), afirmou que Honduras estava submetendo os funcionários eleitorais a “assédio e pressão” e advertiu que Washington agiria com firmeza diante de “qualquer tentativa de comprometer a integridade do processo”.
A intervenção mais notória veio do próprio presidente Donald Trump, que, a cinco dias das eleições, publicou uma longa mensagem nas redes sociais expressando seu apoio explícito ao candidato do Partido Nacional, Nasry “Tito” Asfura, a quem descreveu como “o defensor da democracia”. Ao mesmo tempo, acusou a candidata oficialista Rixi Moncada de ser “comunista” e de estar alinhada com o “narcoterrorismo”, termo que costuma usar — sem apresentar provas — contra o governo venezuelano.
“Será que Maduro e seus narcoterroristas tomarão o controle de outro país, como fizeram com Cuba, Nicarágua e Venezuela? Quem defende a democracia e luta contra Maduro é Tito Asfura, o candidato presidencial do Partido Nacional”, declarou o magnata nova-iorquino.
Asfura agradeceu publicamente o apoio do presidente estadunidense, enquanto a candidata oficialista respondeu pelas redes sociais. Ela declarou: “Me acusam de comunista para esconder a verdade: eles temem a democratização da economia, estão aterrorizados com a Lei de Justiça Tributária e querem que o dinheiro continue sendo um privilégio para dez famílias, e não um direito do povo”. Também voltou a alertar que “a transmissão de resultados preliminares do CNE, programada para domingo às 21h, é uma armadilha”.
Do golpe de 2009 ao ‘socialismo democrático’
Estas eleições serão as primeiras desde que o partido Liberdade e Refundação (Libre) chegou ao poder em 2021, levando Xiomara Castro à Presidência e pondo fim ao bipartidarismo tradicional do Partido Nacional e do Partido Liberal, que se alternaram no governo durante quase toda a história de Honduras, exceto em períodos de interrupções militares.
O Libre surgiu em 2011 como uma frente formada por diversos setores de esquerda e centro-esquerda, em resposta ao golpe de Estado de 2009 contra o então presidente Manuel “Mel” Zelaya — marido de Xiomara Castro — que havia chegado ao poder pelo Partido Liberal. O golpe foi impulsionado principalmente pelo Partido Nacional, após Zelaya anunciar sua intenção de incorporar Honduras à Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América – Tratado de Comércio para os Povos (Alba- TCP), junto aos governos da Venezuela, Cuba, Bolívia e outros países do Caribe.
Após o golpe, o Partido Nacional governou por 12 anos consecutivos, em um período marcado por eleições controversas, acusações de corrupção, vínculos com o narcotráfico e um crescente autoritarismo. Juan Orlando Hernández assumiu a Presidência em 2013 e, em 2017, conseguiu se candidatar à reeleição apesar da proibição constitucional, graças a uma decisão judicial. Naquele ano, as eleições foram denunciadas como fraudulentas pela oposição, desencadeando protestos massivos que foram violentamente reprimidos em um contexto de crescente militarização do país.
Em 2021, após ampla mobilização social contra o governo de Hernández, o Libre obteve a vitória eleitoral, tornando Xiomara Castro a primeira mulher presidenta na história de Honduras e dando início ao projeto político denominado “socialismo democrático”.
Os escândalos de corrupção e narcotráfico explodiram em 2024, quando Hernández foi declarado culpado por um tribunal federal de Nova York por conspiração para traficar drogas e armas. Em junho do mesmo ano, foi condenado a 45 anos de prisão e cinco anos de liberdade condicional, após comprovar-se que havia recebido subornos milionários antes e durante seu mandato para favorecer grupos narcotraficantes.
Projetos em disputa
Longe de se limitar a enfrentar seus opositores políticos, toda a campanha de Rixi Moncada tem se centrado em denunciar “as dez famílias que controlam 80% da economia nacional”. Ela define o “socialismo democrático” como um “projeto de justiça social e democratização econômica”, voltado à “democratização da economia” em uma nação de 10 milhões de habitantes, onde a pobreza afeta 60% da população, segundo dados recentes do Instituto Nacional de Estatísticas.
Durante o lançamento de seu programa de governo, intitulado Democratização da Economia, Moncada afirmou que a luta do LIBRE “enfrenta os mesmos: os 25 grupos econômicos das dez famílias que deram o golpe de Estado e que historicamente saquearam o país”.
Toda a sua campanha se baseia na necessidade de aplicar uma reforma fiscal progressiva, por meio da qual busca estabelecer um sistema em que quem tem maiores rendimentos pague mais impostos em um país profundamente marcado pela desigualdade. Ela propõe uma Lei de Justiça Tributária para que aqueles que mais têm contribuam proporcionalmente mais. “Não estamos propondo tirar dinheiro de ninguém; estamos propondo equidade”, afirma.
Por sua vez, o empresário Nasry Asfura, escolhido por Trump como seu candidato, centrou sua campanha na defesa de uma economia de livre mercado, distante de qualquer “intervenção socialista”, com o objetivo de gerar um “ambiente amigável para os negócios”. Alinhado à direita estadunidense, Asfura se apresenta como defensor da “vida, da família, da segurança e da liberdade”.
Em um contexto de forte influência dos Estados Unidos na região, Asfura propõe acabar com o experimento progressista do governo do Libre e devolver Honduras a uma posição subordinada dentro da política externa estadunidense.
