A farmácia venceu a adega? – CartaCapital

Há uma cena em Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese, em que a prisão se torna suportável graças ao ritual do jantar: o alho cortado com lâmina de barbear para dissolver no azeite, o molho de tomate tornado denso depois de horas de cozimento, as carnes frescas, o vinho tinto para harmonizar. Era um mundo onde comer mal não era perdoável.

Pela leitura de algumas publicações nos últimos dias, a cena parece pertencer ao cinema, mesmo. Na edição em que trata das tendências para o próximo ano, The Economist aponta que o mundo se dará conta de que a humanidade atingiu o pico do consumo de vinho. Em 2024, o volume vendido foi cerca de 10% inferior ao seu auge, em 2014, segundo uma empresa de análise do mercado de bebidas. 

Tanto o volume global quanto o valor do vinho comercializado cairão em 2026. “Mas hoje, pela primeira vez na história moderna, o vinho enfrenta um declínio secular que não tem relação com o cenário econômico mais amplo. As pessoas estão, simplesmente, bebendo menos”, sentencia a publicação inglesa.

A queda não se dá por redução na oferta. A demanda por álcool de todos os tipos recuou, mas o vinho foi atingido com particular força — especialmente os rótulos de massa, que representam a maior parte das vendas. As pessoas estão bebendo com menos regularidade, à medida que se tornam mais preocupadas com a saúde e optam por alternativas com menor teor alcoólico. 

Cerca de 53% dos americanos afirmam que beber, mesmo com moderação, faz mal à saúde, um salto em relação aos 22% de duas décadas atrás, segundo uma pesquisa do Gallup. O vinho é especialmente vulnerável à substituição por novos entrantes, como seltzers e coquetéis em lata ‘prontos para beber’, que podem ter teores alcoólicos mais baixos.

Na sequência, o obituário do almoço de negócios. Aquelas duas horas sagradas, nas quais acordos eram selados sob a bênção de uma garrafa de Barolo ou Bordeaux, foram sacrificadas no altar da produtividade. 

Matéria do Financial Times trata da preocupação de donos de restaurantes com a adoção da nova geração de remédios de emagrecimento. Medicamentos, como Ozempic e Mounjaro, ajudam as pessoas a perder peso ao reduzir a fome. 

Quase 12% dos americanos já fizeram uso deles, de acordo com um relatório recente da Rand. No Reino Unido, a empresa de pesquisa clínica Iqvia estima que 1,4 milhão de pessoas haviam comprado a medicação até abril. Para muitos usuários, esses remédios têm transformado vidas, permitindo-lhes melhorar a saúde e o condicionamento físico. Para outros, criaram dúvidas: o ritual dos almoços de negócios ou dos banquetes está com os dias contados?

A invasão de canetas emagrecedoras poderá aumentar, com ajuda da escala chinesa. Matéria recente de The Economist aponta que a China está ganhando espaço no mundo das farmacêuticas e está à beira de se tornar uma indústria global. Empresas do país asiático estão licenciando medicamentos para gigantes da Europa e dos Estados Unidos. Pesquisa da Bloomberg Intelligence aponta que existem 160 remédios contra a obesidade no mundo, um terço deles em desenvolvimento na China.

Há uma ironia histórica nesse movimento. A China foi, durante milênios, sinônimo de banquete. Festas imperiais serviam cem pratos em rituais que duravam dias inteiros. A comida era filosofia, diplomacia, poesia comestível. 

Hoje, o país que inventou o dim sum e o pato laqueado pode nos vender a abstinência otimizada. Estamos trocando o bon vivant pelo bio-otimizado. O que, exatamente, estamos fazendo com todo esse tempo extra que não gastamos almoçando? Olhando as telas dos celulares e conversando pelos aplicativos ou fazendo exercícios, indo aos museus e aos parques? Comendo e bebendo a moderação. 

A mesa está posta. Poderá não ter nem entrada nem sobremesa. 

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