
Criado em 1964 por Arch West e originalmente produzido pela Alex Foods na costa oeste dos Estados Unidos, o Doritos nasceu inspirado nas tortilhas mexicanas servidas em um restaurante dentro da Disneylândia. O sucesso foi imediato e a Frito-Lay adquiriu e expandiu a marca pelo país. Na década de 1970, com o lançamento do sabor queijo nacho e uma estratégia de marketing voltada para o público latino sob o slogan “Unique Latino Snack”, o produto consolidou sua força. Hoje, o salgadinho de formato triangular está presente em mais de 120 países. O prazer de comer um pacote de snacks não dialoga com as preocupações de saúde. Prazer em um campo. Restrições em outro. No entanto, em um mundo obcecado por saúde e com uma noção distorcida de performance, o inimaginável aconteceu: Doritos Protein.
A PepsiCo anunciou uma novidade que, décadas atrás, soaria como impossível. Disponibilizado primeiramente nos Estados Unidos, o snack estreou com o sabor Sweet & Tangy BBQ (churrasco doce e picante). A estratégia da gigante alimentícia não tenta esconder seu alvo: capturar um público que não quer renunciar ao prazer da junk food, mas que se sente constantemente pressionado pela cultura fitness. Pesquisas citadas pela empresa indicam que 86% dos norte-americanos buscam adicionar mais proteína à dieta de forma ativa. E 70% desejam snacks salgados que ofereçam esse macronutriente. Mas a mágica nutricional para por aí. Uma porção de 28 gramas do novo Doritos proteico (cerca de 10 tortilhas) tem 10 gramas de proteína derivada da caseína do leite. Mas carrega exatamente as mesmas 150 calorias e os mesmos 8 gramas de gordura da clássica versão de queijo nacho.
O Doritos Protein é apenas o mais recente sintoma de um fenômeno que sequestrou a indústria de alimentos: a “proteinificação” de absolutamente tudo. Caminhar pelos corredores de um supermercado atual revela produtos que não possuem nenhuma relação natural com desenvolvimento dos músculos, ganhando versões bombadas. O mercado está inundado de cafés em pó proteicos, achocolatados com whey, águas “funcionais”, sorvetes e até gomas de mascar fortificadas. A raiz desse boom está na consolidação de uma cultura de alta performance que invadiu o tempo livre das pessoas. Parece não ser mais aceitável apenas existir, descansar ou comer pelo simples prazer. Cada caloria ingerida precisa ter uma função utilitária, uma entrega, como se o corpo fosse uma máquina industrial precisando reportar lucros em forma de massa magra.
O mais irônico dessa enxurrada de alimentos enriquecidos é que ela responde a um problema que, fisiologicamente, está muito mais no imaginário do que no corpo. A obsessão por ingerir proteína extra o tempo todo não faz o menor sentido do ponto de vista nutricional para grande parte das pessoas. As necessidades diárias desse macronutriente são facilmente supridas por uma dieta convencional pautada em comida de verdade. Um filé de peito de frango de 150 gramas já fornece quase 45 gramas de proteína de altíssimo valor biológico. Dois ovos mexidos no café da manhã entregam cerca de 12 gramas. Até mesmo a população estritamente vegetariana supre suas necessidades sem grandes sacrifícios: o clássico e popular prato brasileiro de arroz com feijão forma uma cadeia perfeita e completa de aminoácidos essenciais.
Por que os produtos encontram resultados nas vendas? Em primeiro lugar, existe uma parcela de consumidores que é do grupo dos “não praticantes”. Gente que toma isotônico sem ter perdido sais minerais. São os “atletas não praticantes.” Sentem-se esportistas pelo consumo de produtos indicados para os momentos de desgaste físico. O outro motivo é uma imaginária redução de danos e de culpa. Alimentos ultraprocessados continuam sendo danosos à saúde. Contudo, a inclusão do macronutriente da moda opera como um mecanismo psicológico de redução de culpa. Com versões proteicas, a indústria alimentícia não vende saúde. Ela oferece a absolvição: o consumidor engole suas 150 calorias com a tranquilidade ilusória de quem acredita estar otimizando os próprios músculos. Desvendado o mistério, fica aqui um pedido pessoal: salames e presuntos crus com proteínas. Quem sabe vinhos também. Eu estrago minha saúde com muitos prazeres. Vai que a culpa me pegue nesse dia. É melhor prevenir.
