
O consignado privado já movimenta mais de R$ 100 bilhões no Brasil, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. Ainda assim, 45% dos empresários não reconhecem a modalidade como benefício ou vantagem operacional para funcionários. O dado consta em levantamento da Serasa Experian com mais de 550 organizações.
A pesquisa indica que parte relevante das empresas ainda não compreende o funcionamento do consignado privado, mesmo após a regulamentação publicada em março de 2025. A norma disciplinou a operacionalização por meio do Portal Emprega Brasil, com integração obrigatória ao eSocial e ao Domicílio Eletrônico Trabalhista, além de padronizar regras previstas na Lei nº 10.820/2003.
Como funciona o consignado privado
O consignado privado é uma modalidade de empréstimo com desconto direto na folha de pagamento do trabalhador formal. Após a autorização, a empresa registra o valor no sistema e realiza o desconto mensal.
Em seguida, o montante é repassado à instituição financeira por meio de guias digitais, como FGTS Digital ou Guia DAE, conforme o tipo de empregador. A empresa não concede o crédito nem assume risco financeiro.
Não há custo direto para o empregador. Já o trabalhador acessa taxas de juros inferiores às praticadas no crédito pessoal tradicional.
Obrigações das empresas
Embora o consignado privado seja direito do trabalhador, a regulamentação impôs responsabilidades administrativas às empresas. O descumprimento pode gerar inconsistências na folha, passivos trabalhistas e questionamentos jurídicos.
Na prática, o processo envolve etapas definidas. Mensalmente, a empresa deve acessar o Portal Emprega Brasil para consultar e baixar contratos firmados pelos funcionários.
Depois, os valores precisam ser registrados no eSocial com rubrica específica. Além disso, o desconto não pode ultrapassar 35% da remuneração disponível, após abatimentos obrigatórios como INSS, IRRF e pensão alimentícia.
Por fim, o recolhimento das parcelas deve ocorrer até o dia 20 do mês seguinte à competência do desconto.
Por que o consignado privado gera dúvidas
Parte da resistência decorre da rotina das pequenas e médias empresas. Gestores estão habituados a benefícios tradicionais e não foram expostos à dinâmica operacional do consignado privado.
A mudança regulatória de março de 2025 ampliou o uso de sistemas digitais e integração obrigatória, o que elevou o nível de atenção sobre procedimentos internos.
Ainda assim, com organização no RH e apoio contábil, o processo tende a se tornar rotina administrativa padronizada.
Impacto para trabalhadores e empresas
Para os trabalhadores, o consignado privado representa acesso a crédito com juros menores e pagamento previsível. Como o desconto ocorre na folha, o risco de inadimplência diminui.
Para as empresas, a correta operacionalização reduz risco jurídico e evita retrabalho no departamento pessoal. Além disso, ao garantir acesso a crédito regulado, a organização contribui para a estabilidade financeira dos funcionários.
Segundo Juliana Freitas, CEO da Bull, a principal barreira é informacional. “Empresários muitas vezes acham que o consignado privado é complexo ou oneroso, quando ele é padronizado e pode ser integrado aos processos existentes”, afirma.
O avanço do consignado privado no Brasil indica que empresas que estruturarem rotinas claras e alinhadas à regulamentação tendem a reduzir riscos e operar com maior previsibilidade.
