Carnaval deve ser de muito calor e chuva em boa parte do País – CartaCapital

“Felicidade é tão somente coincidir a vida com as ideias.”
Albert Camus

Um dos blocos mais animados de São Paulo neste Carnaval foi o dos Acadêmicos da URSAL (União das Repúblicas Socialistas da América Latina). A saída aconteceu na Rua São Bento, no centro histórico da cidade. As marchinhas eram sensacionais; os brincantes, mais ainda. Para quem quiser acompanhar a irreverência política e estética do grupo, o bloco está no Instagram: @academicosdaursal.

Há heranças que não se medem em bens, mas em experiências. Muitas vezes nos concentramos nas primeiras e esquecemos que as segundas são infinitamente superiores. Minha mãe, meu pai, minha avó materna — além de tias e tios — ensinaram-me a amar o Carnaval. Só agora, nesta altura da vida, consigo aquilatar a importância dessa alegria coletiva: uma celebração profunda, como bem observou Dom Hélder Câmara.

No bloco da URSAL, a criatividade corria solta. Uma das brincantes carregava um cartaz que sintetizava o espírito da festa e da crítica: “Hoje, tomo cachaça; amanhã, os meios de produção.” Até a sisuda São Paulo se transformou. As ruas se encheram de cores, fantasias e corpos que evocam nossa ancestralidade indígena. As relações tornaram-se mais leves.

Em meio a esse clima, fui comprar um hidratante para o cabelo na L’Occitane au Brésil, no Shopping Center 3. A vendedora, gentilíssima, fez-me experimentar o creme e recomendou: “Não leve agora. Experimente primeiro; se gostar, depois compra.” Expliquei que moro em Porto Alegre e, por isso, precisaria decidir na hora. Ainda assim, surpreendeu-me a honestidade que antecede o interesse econômico — um gesto simples que ilumina a experiência urbana.

Quem for ao centro de São Paulo não deve perder a excelente exposição de Joaquín Torres García no Centro Cultural Banco do Brasil. A curadoria estabelece diálogos entre o extraordinário artista uruguaio e seus pares brasileiros, entre eles Arthur Bispo do Rosário. As semelhanças são eloquentes: brasileiros e uruguaios revelam-se, culturalmente, irmãos.

Num dos cadernos de Torres García, escrito no período em que viveu na França e conviveu com artistas como Piet Mondrian, lê-se (em tradução livre):

“Fazer é a primeira palavra que escrevo aqui; antes de pensar, fazer; realmente conhecemos (compreendemos) e sabemos ao fazer.”

O Brasil é uma potência da alegria. Essa é nossa força — e talvez nossa vocação histórica. A hegemonia cultural precede a política e, muitas vezes, antecipa o futuro.

Isso se evidencia, por exemplo, no filme israelense Yes, em cartaz no Reserva Cultural. Apesar de ter recebido recursos do Ministério da Cultura de Israel — contradição inevitável para alguns — o longa faz uma crítica contundente ao genocídio em Gaza, ampliando-a para as políticas de apartheid, supremacismo branco e racismo do atual governo de extrema direita israelense.

Investir em cultura pode ser a única saída do túnel em que a extrema direita mundial tenta nos encurralar. Cultura e justiça trazem verdade — e aquele judeu-palestino já anunciara que a verdade nos libertaria.

Com efeito, São Paulo VI contrapôs ao antigo lema si vis pacem, para bellum (“se queres a paz, prepara-te para a guerra”) uma máxima mais radical: “Se queres a paz, promove a justiça.”

Cultura e justiça: eis o que o bloquinho da URSAL, em sua ingenuidade carnavalesca, parecia propor.

Em O significado dos conflitos (Editora Vozes), Verena Kast recorda: “Jung afirma que o fundamento essencial da personalidade é a afetividade.” Sem considerar esse ponto, não haverá mudanças profundas — nem no Brasil, nem na comunidade internacional — capazes de conduzir-nos a uma civilização da alegria, em vez do ódio e da guerra.

Na mesma obra, Kast observa que muitas vezes desprezamos para não invejar, mas que traumas infantis podem ser superados pela narração:

“Não basta apenas obter informações sobre difíceis experiências de relacionamento; precisamos de histórias narradas. As pessoas devem, pela imaginação, voltar a se colocar nas experiências que tiveram e narrá-las da forma mais emocional possível, agora como adultos.”

E complementa:

“Em última análise, não sabemos exatamente quando as formações de complexos ocorreram, e algumas delas certamente aconteceram num momento em que a criança ainda não podia expressá-las verbalmente.”

A coerência complementa a busca pela justiça e pela alegria. A individualização também. Somos semelhantes na busca por felicidade, amor e convivência — mas profundamente diversos em nossas somatizações. Adoecemos e nos curamos de maneiras distintas.

Conciliar o individual e o coletivo torna-se, assim, um belo desafio existencial — muito mais promissor do que dominar, roubar e expropriar, como parece sugerir a tendência hegemônica de certa ultradireita do Norte nesta quadra histórica.

Talvez seja a catarse do Carnaval que ainda possa nos trazer alegria, cultura, justiça, coerência. E alguma paz.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.



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