Safras de incerteza – CartaCapital

Haveria de se esperar que um mercado que movimenta 21 bilhões de reais por ano e mudou de patamar desde a pandemia exalasse o perfume de uma safra de qualidade inquestionável, mas a realidade é diferente: há volume e potencial, mas o equilíbrio é precário. 

O consumo per capita saltou de um modesto 1,8 litro em 2019 para o pico histórico de 2,78 litros em 2020, recuando para 2 litros em 2023 antes de se estabilizar novamente entre 2,5 e 2,7 litros. O mercado cresceu 4% em 2025, com a expansão baseada em vinhos de maior valor agregado. Já as margens de lucro têm sido reduzidas por uma combinação de valorização do câmbio, inflação e juros altos, e estoques globais excedentes. A guerra comercial de Donald Trump e a redução de consumo do vinho no mundo têm feito o Brasil ser um mercado olhado de perto por muitos produtores externos. 

“Há uma sobreoferta no mercado, com estoques em alta, e a rentabilidade está em xeque”, diz Felipe Galtaroça, sócio da Ideal Bi Consultoria, que lançou nesta semana um estudo sobre o setor. O câmbio médio do ano passado ficou em 5,5 reais por dólar, os juros ficaram em 15% ao ano e a inflação em cinco anos chegou a 45%. “Esse cenário poderá levar a um avanço da consolidação”, diz. Em importação, as dez maiores empresas mal chegam a responder por metade do mercado. 

Mais rótulos importados têm sido abertos em casas e restaurantes. As importações bateram mais um recorde em 2025, chegando a 550 milhões de dólares, com um volume de 18 milhões de caixas. Em dez anos, o volume importado mais que dobrou. O Chile liderou em volume, com a França sendo a primeira colocada em valor. 

O brasileiro tem bebido mais vinhos brancos e espumantes, que já chegam a 30% de participação no mercado – uma alta de dez pontos percentuais em relação aos dados de 2019. Uma das razões é a maior presença feminina nas escolhas de rótulos. As mulheres assumiram não apenas a taça, mas o controle do tabuleiro, representando 53% do mercado consumidor em 2024, um salto de seis pontos percentuais em relação a 2019, segundo o relatório IWSR Brazil Wine Landscapes 2025. 

O consumo regional tem grandes diferenças entre estados, com a liderança no Sul e no Sudeste: o maior consumo per capita do País está no Rio Grande do Sul, com 3,35 litros por habitante e 13% do mercado de vendas do Brasil, enquanto paulistas consomem 1,64 litros e representam um quarto do mercado brasileiro. Fora desse eixo, o maior destaque é Brasília, com 2 litros por habitante e 2% do mercado nacional.

O mercado atual é ditado por 32 milhões de brasileiros que consomem pelo menos uma vez por mês uma garrafa, sendo que 80% desse contingente bebe regularmente. “O potencial de mercado grande e a mudança de patamar pós-pandemia trouxeram novos ares”, afirma Alexandre Magno, CEO do Grupo Wine, que em 2024 quase atingiu 1 bilhão de reais de receita. A Wine se tornou em 2020 uma empresa de capital aberto não listada em bolsa. Tentou a abertura de capital no início da década, mas deixou de lado a ideia. Mas ter dados transparentes fez com que o custo de capital caísse 1,5 ponto percentual. “É uma opção que pode ser feita em algum momento, mas não um fim em si”, diz Magno.

Em relação ao movimento de possível consolidação, ele diz que não tem mantido conversas com grupos, mas que o setor pode se consolidar nos próximos anos. “Há muitas empresas familiares, e isso pode ser uma forma de resolver a sucessão desses grupos”, observa. Em 2021, depois de uma emissão de debêntures de 120 milhões de reais, a Wine adquiriu a Cantu, importadora com portfólio de vinhos do Novo e Velho Mundo. 

Se o mercado brasileiro ainda atravessa dificuldades, para muitos produtores estrangeiros se tornou potencial de crescimento em um momento em que a Europa consome cada vez menos vinho e o maior mercado do mundo, os Estados Unidos, tem ampliado alíquotas de importação. Na esteira da alta do consumo de vinhos brancos no Brasil, produtores de Chablis, um vinho que se harmoniza bem com frutos do mar, têm olhado o Brasil. “O consumo brasileiro está em alta”, diz Anne Moreau, diretora de comunicação e marketing do Bureau Interprofissional dos Vinhos da Borgonha (BIVB), que esteve no ano passado no Brasil.

No Brasil, o Chablis representa um quarto do total de vinhos importados da Borgonha. E a Borgonha, por sua vez, responde por um quarto dos rótulos franceses que chegam ao Brasil em valores. 

A democratização do acesso, que outrora era um sonho de marketing, transformou-se em uma realidade de gôndola, mas o preço dessa vitória é uma pressão competitiva que não admite erros de planejamento. O futuro próximo, com as eleições, o acordo Mercosul-União Europeia, a guerra comercial dos Estados Unidos e a Copa do Mundo de 2026, promete novas oscilações. Amante de charutos cubanos e de vinho, Tom Jobim já dizia que o Brasil não é para principiantes. 

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