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Apesar de a soja ainda ser a rainha do agronegócio brasileiro, o milho vem ampliando sua relevância econômica e estratégica para o setor. Um dos fatores que mais pesa para isso é o etanol de milho, que tem registrado crescimento ano após ano no Brasil. 

Além de ser muito vantajoso do ponto de vista econômico, a tecnologia do etanol pode ser uma alternativa à descarbonização da frota e ainda agregar maior valor a um produto essencial na alimentação humana e animal. 

Segundo o Ministério de Minas e Energia, o Brasil já é o segundo maior produtor de etanol de milho no mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos. A produção passou de 2,59 bilhões de litros na safra 2020/21 para projeções que chegam próximo a 10 bilhões na safra 2025/26.  

O crescimento significativo se dá em razão do aumento no número de biorrefinarias pelo país, sobretudo na região centro-oeste. Outras indústrias, porém, já estão em construção em diferentes estados, como a usina da cooperativa Coamo, em Campo Mourão, no centro-oeste do Paraná. Com investimento de R$ 1,7 bilhão, a nova usina de etanol deve iniciar as operações no segundo semestre deste ano.  

Ao contrário de outras grandes biorrefinarias, a usina paranaense deve se integrar a um parque industrial que já beneficia outras commodities e está integrado a uma cadeia de produção que tem o milho como principal insumo. “Precisamos agregar valor à produção, e uma das maneiras é por meio da verticalização. Já fazemos isso com a soja, o trigo e vamos fazer também com o milho”, afirma o presidente da Coamo, Airton Galinari.  

O Paraná é o maior produtor de proteína animal do Brasil – líder em carne de frango e vice em carne suína, sem contar a liderança na produção de peixes de cultivo, como a tilápia. Como o milho é a base da alimentação desses animais, o estado já se tornou vice-líder na produção brasileira e tem no etanol um aliado importante para fortalecer toda a cadeia produtiva.  

Cada tonelada de milho produz em torno de 450 litros de etanol e 300 quilos de farelo, além de óleo e energia. O farelo, chamado tecnicamente de DDG (Distillers Dried Grains ou “Grãos de Destilaria Secos”), contém alto teor de proteína, fundamental na nutrição animal e alternativa mais econômica na comparação com o farelo de soja.

Portanto ao processar o milho, produtores aumentam significativamente o valor agregado com novos produtos e coprodutos (etanol, DDG, óleo, energia) e ainda reduzem custos na cadeia de produção de proteína animal, sem contar os benefícios ambientais.

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Etanol de milho no centro da transição energética

O avanço do etanol de milho ocorre em um momento em que a redução das emissões de carbono passa a ser também uma exigência comercial para atender mercados internacionais, e os biocombustíveis surgem como alternativa já consolidada.

Poucos sabem, mas o motor a álcool é uma inovação totalmente brasileira. Desenvolvida na década de 1970, a tecnologia surgiu em resposta à crise do petróleo e se consolidou no mercado nacional com a mistura do álcool à gasolina, atualmente em 30%, e, mais tarde, com a introdução dos motores flex.

As preocupações ambientais tornaram os veículos flex uma alternativa econômica e mais “brasileira” se comparado aos veículos elétricos movidos a bateria, cuja tecnologia é trazida de fora, principalmente da China, e com custos mais elevados, sem contar que as baterias utilizam componentes não-renováveis.  

O governo federal, que tenta se mostrar internacionalmente preocupado com questões ambientais, enfrenta um dilema: deseja consolidar o etanol como alternativa à descarbonização da frota, mas não quer desagradar os aliados chineses que estão apostando no Brasil como um dos principais mercados para seus veículos elétricos. 

O Ministério de Minas e Energia tem afirmado que o governo “não trabalha com a lógica de uma única solução para a descarbonização da mobilidade” e que as tecnologias “desempenham um papel complementar, combinando eficiências energéticas, eletrificação (quando fizer sentido econômico) e biocombustíveis”. 

Por outro lado, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) – representante das montadoras que fabricam em sua maioria veículos movidos a biocombustíveis, como o etanol – tem outro ponto de vista.

“Quando analisamos o ciclo de vida entre as diferentes tecnologias de propulsão, o veículo, quando movido a etanol, possui uma pegada de carbono similar à do veículo elétrico, devido ao fato de a produção da bateria para esses veículos ainda representar uma grande proporção na contabilização de suas emissões totais. O Brasil tem os automóveis com menor emissão de CO2 do planeta”, afirma Gilberto Martins, diretor de Assuntos Regulatórios da Anfavea.

Produção de milho ganha novo papel estratégico ao abastecer biorrefinarias e ampliar a geração de energia e coprodutos no agro brasileiro. (Foto: Wenderson Araujo/CNA)

Produção de etanol não ameaça o abastecimento

Crescendo da maneira como está e sendo tão importante na alimentação humana e de animais, tanto de produção quanto domésticos, é de se questionar se pode faltar milho no mercado.

Para o professor Lucílio Alves, do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), não há o que temer. “Nas últimas seis safras a produção doméstica cresceu 37,5%, e o consumo interno, 35,1%. Com isso, o excedente doméstico subiu 7,7%, ficando entre 34,3 milhões e 61,8 milhões de toneladas”. 

Além disso, Alves argumenta que há um aumento na oferta do milho no país, sobretudo porque o cereal responde melhor aos estímulos do mercado – isto é, se o preço sobe, a produção também aumenta.  

Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), “o aumento da produção de etanol de milho não é visto como um fator de desestímulo à produção de alimentos essenciais, desde que inserido em um modelo de desenvolvimento agrícola equilibrado”. 

A pasta informou também que as lavouras usadas para produção de etanol de milho estão consolidadas e fazem parte de sistemas integrados, com rotação de culturas. Assim, não substituem áreas de alimentos básicos. 

O próprio Mapa estabeleceu políticas públicas para que pequenos e médios produtores plantem milho e se integrem à cadeia de produção de etanol, tais como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), que oferecem crédito rural. 

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Etanol de milho não deve gerar inflação

Com boa oferta no mercado, dificilmente haverá uma inflação do milho, como já ocorreu com outros alimentos da cesta básica no Brasil, como o ovo, o café e o arroz.

E além de não depender de importações, o milho apresenta outras vantagens. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, “a indústria de etanol de milho utiliza, majoritariamente, milho excedente da segunda safra, que não compete diretamente com o abastecimento interno destinado à alimentação humana”. 

Ainda de acordo com Lucílio Alves, os coprodutos do milho, como os DDGs, reduzem a demanda, porque retornam ao sistema alimentar por meio da ração animal. “Além disso, a formação de preço do etanol no Brasil é fortemente influenciada pela paridade com a gasolina, o que limita o repasse direto e contínuo de custos ao consumidor”, pontua o professor da USP.

“Embora haja maior exposição a oscilações de mercado, não há evidência de que o etanol de milho gere inflação persistente ou desorganize o sistema de preços, especialmente em um ambiente de oferta agrícola diversificada”, prossegue.

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