
A defesa de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, recusou-se a informar a senha do aparelho celular do banqueiro após pedido da Polícia Federal, durante acareação realizada no Supremo Tribunal Federal em dezembro passado. A negativa partiu do advogado Roberto Podval à delegada Janaína Palazzo, responsável pela investigação.
O conteúdo da oitiva estava sob sigilo, mas tornou-se público pelo STF nesta terça-feira 29. Segundo o defensor, havia “receio de vazamentos” que pudessem comprometer a “privacidade pessoal” do seu cliente. O advogado ponderou que a delegada havia declarado que o sigilo seria absoluto, mas justificou a negativa do sigilo do aparelho após perguntas que seriam feitas durante o depoimento terem sido divulgadas pelo jornal O Globo.
Palazzo perguntou a Vorcaro se ele autorizaria à PF realizar o levantamento do seu sigilo telemático, mas a resposta foi dada por Podval, que a questionou sobre se o aval seria uma condição ao relaxamento das medidas cautelares impostas ao banqueiro. “Eu não estou fazendo uma troca, doutor. Eu estou fazendo um pedido da mesma forma que o senhor fez, para ser submetido a apreciação da defesa”, respondeu a delegada.
Mais adiante, o advogado disse que havia preocupação com “relações absolutamente pessoais” sem relação com o Master. “Para nós, era muito mais fácil abrir tudo e entregar tudo. Mas nós podemos envolver pessoas em relações absolutamente pessoais e particulares, que não têm nenhuma relação com o que nós estamos tratando”. Podval não disse sobre quem estava se referindo. A PF até agora não revelou se conseguiu descriptografar o celular do investigado que foi apreendido quando Vorcaro foi preso, em 17 de novembro.
No início da acareação com o ex-presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa, o advogado voltou a falar do caso, queixando-se do vazamento de informações da investigação. “Então, só para deixar claro, respondendo sua pergunta [da delegada], quando me diz: o senhor abre o celular? Tem sigilo absoluto! O sigilo era absoluto e não deu 20 minutos as questões estavam todas ali colocadas [na imprensa]”.
Durante o momento em que estavam frente a frente, Vorcaro e o ex-chefe do BRB apresentaram versões conflitantes sobre a origem das carteiras de crédito adquiridas pelo banco público a partir de 2025.
O dono do Master afirmou que tinha ciência à época das negociações que os papéis vendidos pelo Master eram da Tirreno, uma empresa recém-inaugurada e que não tinha sequer registros de movimentação de dinheiro, mas sim de terceiros, de forma genérica. Os papéis da Tirreno se revelaram desvalorizados em seguida.
O ex-presidente do BRB, no entanto, disse que acreditava que a origem dos créditos havia sido do próprio Master. “O meu entendimento, que coloquei mais cedo, é que eram carteiras originadas pelo Master, que haviam sido vendidas ou negociadas a terceiros e que o Master estava comprando e revendendo para a gente”, declarou Paulo Henrique.
A acareação entre os dois ocorreu por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli. Ele é relator do inquérito que apura um esquema de fraudes bilionárias contra o sistema financeiro e miram Vorcaro.
As investigações apontam para a fabricação de carteiras de crédito insubsistentes que, depois de vendidos a outro banco e passados pelo crivo do Banco Central, eram substituídos por ativos sem avaliação técnica adequada. Em 18 de novembro, o BC decretou a liquidação extrajudicial do Master, inviabilizando o processo de venda da instituição que havia sido anunciado na véspera.
