A celebração do anacronismo – CartaCapital

Nas últimas semanas, três notícias celebradas como ótimas em áreas completamente distintas elevaram os ânimos de muita gente no Brasil: dados consolidados do final de novembro de 2025 confirmaram a queda expressiva do desmatamento na Amazônia e no Cerrado; em meados de dezembro passado, o País celebrou a erradicação da transmissão vertical do HIV — um baluarte ético do SUS; e, finalmente, neste início de janeiro, deu-se a formalização política do acordo entre Mercosul e União Europeia, encerrando um exílio comercial de décadas.

São conquistas substantivas, frutos, nos três casos, de um trabalho persistente do governo. Elas devem ter seu mérito reconhecido e não podem ser ignoradas. 

Há, no entanto, um descompasso perturbador entre a solidez dessas notícias e a liquidez do solo sobre o qual pisamos. Vivemos um momento em que as vitórias de um “velho mundo” parecem camuflar uma miopia coletiva diante de uma ruptura civilizatória sem precedentes.

O estranhamento reside no fato de estarmos celebrando o reparo impecável das velas de um navio no exato instante em que o próprio oceano está mudando de natureza. Enquanto o debate público se concentra em alíquotas de exportação e metas de preservação — agendas fundamentais do século XX que ainda lutamos para esgotar —, a inteligência artificial e a fronteira da biotecnologia avançam para além da simples produtividade. Elas tocam na essência do que entendemos por trabalho, soberania e agência humana.

Assistimos a um “continuísmo” psicológico: agimos como se o amanhã fosse uma extensão linear do hoje. Discutimos o mercado de trabalho ignorando que a própria utilidade do intelecto humano está sendo renegociada por algoritmos generativos. Planejamos a economia para o próximo lustro sem considerar que a computação quântica e a automação cognitiva podem dissipar a escassez e o valor de forma que nenhum tratado comercial atual consegue prever.

Há um silêncio sintomático sobre o que realmente importa para a sobrevivência das sociedades futuras. O mundo todo e o Brasil em particular parecem mergulhados em um pragmatismo que, embora talvez pareça vitorioso no curto prazo, ignora que a verdadeira fronteira não é mais geográfica ou tarifária, mas computacional e ética.

Não se trata de desmerecer o brinde pelas boas novas — salvar vidas e proteger biomas são imperativos que honram nossa história e nossa tradição em saúde coletiva. Mas é preciso reconhecer a estranheza de uma civilização que festeja a pintura da fachada enquanto as estruturas tectônicas abaixo da casa se movem em velocidades exponenciais. Sem a consciência da ruptura, o progresso é apenas uma forma sofisticada de espera. É urgente que o debate nacional suba de patamar: o futuro não será apenas mais moderno; ele será, fundamentalmente, outro.

Nesse horizonte de transformações, a Ciência e a Tecnologia deixam de ser meros setores de investimento para se tornarem a própria espinha dorsal da soberania nacional. Hoje, mais do que nunca, o domínio alforriado do conhecimento científico não é um luxo acadêmico, mas a única ferramenta capaz de converter o Brasil de espectador passivo em arquiteto de sua própria realidade. Sem uma aposta radical na pesquisa fundamental e na inovação, em particular na inovação acionada pela ciência, corremos o risco de nos tornarmos impecáveis na gestão de problemas que o novo mundo já terá deixado para trás. O modelo fordiano de desenvolvimento tecnológico está superado. Apostar na Ciência hoje é, acima de tudo, garantir que o “solo movente” não nos soterre, mas nos sirva de impulso para a construção de uma nação que não apenas habita o futuro, mas ajuda a decifrá-lo.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Repost

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *