
Indicado ao Oscar em quatro categorias, o filme O Agente Secreto repercute no mundo por sua história universal “sobre o uso do poder para esmagar as pessoas”, disse o diretor Kleber Mendonça Filho, em entrevista à AFP.
Após Ainda Estou Aqui vencer o Oscar de melhor filme internacional no ano passado, uma nova obra sobre a ditadura militar brasileira atrai a atenção de Hollywood e vai disputar a estatueta dourada em quatro categorias, após conquistar dois Globos de Ouro, entre outros prêmios.
Kleber Mendonça Filho (Aquarius, Bacurau) relaciona o bom momento da indústria cinematográfica brasileira ao retorno de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao poder em 2023, “depois de quatro anos em que a cultura, em termos práticos, foi extinta no país”, declarou.
O cineasta conversou por telefone com a AFP desde Recife, cidade onde nasceu, em 1968, e onde recebeu na última quinta-feira 22 a notícia das indicações ao Oscar.
Cenário-chave de seus filmes, foi na capital de Pernambuco que Wagner Moura encarnou um professor universitário recém-chegado de São Paulo que não sabia que era procurado por pistoleiros ligados ao regime militar.
PERGUNTA: O que explica este momento positivo para o cinema brasileiro?
RESPOSTA: “O cinema nacional foi reconectado à tomada com a eleição de Lula em 2022, depois de quatro anos em que a cultura, em termos práticos, foi extinta no Brasil. O Ministério da Cultura foi extinto. Todos os mecanismos de fomento foram desabilitados.
Também tivemos uma coisa que eu acho que foi uma grande química que aconteceu. Temos dois filmes que foram muito bem aceitos no Brasil e no cenário internacional.”
Ambos os filmes abordam a ditadura militar brasileira. Por que essas histórias repercutem tanto no exterior?
“Acho que qualquer história sobre o uso do poder para esmagar as pessoas sempre será universal.
O mundo de hoje continua sendo o mesmo mundo de guerras, invasões, roubos de terra, uso de poder militar e pessoal, agressões, batalhas… Não é como se tudo o que a gente está vendo agora fosse novidade. O que choca é que o mundo continua cometendo os erros de sempre.
Quando escrevi O Agente Secreto, inicialmente achava que eu estaria isolado lá em 1977, mas comecei a perceber que o filme, na verdade, falava muito sobre a lógica do Brasil em 2019, 2020, 2021 [sob a presidência de Jair Bolsonaro]. Que é exatamente uma lógica trazida do passado. Em plena democracia do século XXI, um grupo de políticos decidiu reeditar a iconografia, as palavras, o jeito, a lógica e a falta de ética de um regime militar.”
Como o filme foi recebido nos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump é criticado por ataques às liberdades e por sua política contra os imigrantes?
“A reação ao filme é fortíssima. Ele tem a capacidade de fazer com que muitas pessoas nos Estados Unidos contemporâneos se identifiquem com a sua história.
Acho que a reação passa muito pelo momento histórico atual nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, há uma reação também muito emotiva.”
Lula disse que O Agente Secreto é um filme essencial para evitar que a violência da ditadura caia no esquecimento. O cinema brasileiro tem um papel político importante hoje, neste sentido?
“Eu não tenho a obrigação de fazer filmes políticos, eu não vejo dessa forma.
Se você faz um filme ou conta uma história de maneira honesta, franca e com conhecimento sobre o que está falando, provavelmente estará fazendo ou colaborando para uma compreensão melhor do país, da sociedade.
Acho que meus filmes têm contribuído de alguma forma com o debate, mas eles não foram desenhados nem montados para isso.”
Wagner Moura participa pela primeira vez de um dos seus filmes. Ele pode ganhar o Oscar de melhor ator?
“Ele é um grande ator, um grande artista, uma grande pessoa e está exatamente onde deveria estar.”
Você tem sido muito aberto em seus posicionamentos políticos. Vê o cinema como uma forma de resistência?
“Não faço filmes para serem estandartes de resistência, mas acredito que a arte, a expressão artística, pode funcionar muito bem como uma peça de resistência.”
