
Começa em Dresden o processo contra oito suspeitos de extremismo de direita acusados de planejar um golpe de Estado. O objetivo deles seria a criação de um regime nazista.
Os acusados se autodenominavam “Separatistas Saxões”, ou SS, em clara alusão ao nacional-socialismo. Durante o período de terror sob Adolf Hitler, de 1933 até o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, SS era a abreviação de Schutzstaffel, uma organização paramilitar de elite que atuava como instrumento central de poder, crucial no planejamento e na execução do Holocausto e de outros crimes brutais.
De acordo com a Procuradoria Federal alemã, os “Separatistas Saxões” se preparavam para derrubar a democracia na Alemanha 75 anos após o fim da era nazista. Segundo os investigadores, o grupo suspeito de terrorismo de extrema-direita foi fundado na cidade de Brandis, perto de Leipzig, no estado da Saxônia, no leste do país, em 2020.
“Tratava-se de um grupo militante de cerca de 20 pessoas cuja ideologia era moldada por ideias racistas, antissemitas e, em parte, apocalípticas”, disseram os procuradores.
Operações na Alemanha, na Áustria e na Polônia
Oito homens suspeitos de pertencerem ao grupo foram presos em novembro de 2024 durante operações internacionais realizadas na Alemanha, na Áustria e na Polônia. Eles permanecem sob custódia das autoridades.
O julgamento dos suspeitos ocorre no Tribunal Regional Superior na capital do estado da Saxônia, Dresden, a partir desta sexta-feira 23.
De acordo com a acusação, os suspeitos estavam convencidos de que a Alemanha se encontrava à beira do colapso e que, em um futuro “dia X”, o Estado e a sociedade entrariam em colapso. “Os membros da organização estavam determinados a usar essa oportunidade para conquistar o máximo possível da Saxônia pela força armada, a fim de estabelecer um Estado independente baseado na ideologia do nacional-socialismo.”
O grupo é acusado de planejar a “liquidação” de representantes do atual Estado federal alemão. Além disso, a “SS” visava remover da região pessoas que considerava indesejáveis – especialmente minorias étnicas e oponentes políticos – por meio de limpeza étnica.
Desde sua fundação, os “Separatistas Saxões” planejaram de forma contínua o que consideravam a inevitável derrubada do sistema. Os promotores federais avaliam que o líder do grupo seria um suspeito chamado Jörg S. Ele era o principal responsável por administrar a comunicação entre os membros e liderava o treinamento paramilitar.
Suspeito baleado durante prisão
“Quase todos eles praticavam o manuseio de armas de fogo reais em estandes de tiro na Alemanha, na Polônia ou na República Tcheca e também trabalhavam para adquirir equipamentos.” Um dos suspeitos, Kurt H., foi acusado de tentar atirar em um policial durante sua prisão e acabou sendo alvejado no rosto e no ombro, o que o deixou incapacitado.
De acordo com vários relatos na imprensa, Kurt H. e outros dois suspeitos atuavam no partido ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD). A legenda no estado da Saxônia é classificada como extremista de direita pelo Departamento Federal para a Proteção da Constituição (BfV), o serviço de inteligência interna da Alemanha. Segundo o órgão, os “Separatistas Saxões” são um ótimo exemplo de quão intimamente os neonazistas estão interligados com a AfD.
Deputado da AfD empregava “Separatistas Saxões”
A prisão dos suspeitos de terrorismo de extrema direita teve consequências para o deputado estadual da AfD pela Saxônia Alexander Wiesner em março de 2025.
O Parlamento estadual votou por maioria absoluta para destituí-lo da Presidência da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direito e Europa. Ele foi acusado de empregar dois supostos membros dos “Separatistas Saxões”, que agora estão sendo julgados, sendo estes Kurt H. e Kevin R.
A AfD expulsou ambos do partido, juntamente com o também réu Hans-Georg P. Os processos iniciados contra eles e outros cinco homens perante o Tribunal Regional Superior de Dresden também poderão fornecer informações sobre a dimensão internacional do extremismo violento de extrema-direita, de acordo com inúmeros indícios encontrados pelos investigadores.
O tribunal se preparou para um julgamento longo, com 67 dias de audiência agendados até dezembro de 2026.
Treinamento militar
A organização terrorista teria sido formada em novembro de 2020 por um jovem da pequena cidade de Brandis, outros três detidos se juntaram a ele nessa época. Em 2022 e 2023, mais jovens aderiram ao grupo, que era ativo no espaço virtual.
De acordo com as autoridades, os integrantes do grupo realizavam treinamentos paramilitares, que incluía guerra urbana e manuseio de armas de fogo.
O grupo tinha uniformes de camuflagem, capacetes de combate, máscaras de gás e coletes à prova de balas.
No “Dia X”, baseado em ideias propagadas pelo extremista de direita James Nolan Mason, na década de 1980, ocorreria um suposto colapso do governo e seria o momento de tomar o poder à força.
Mais de 450 agentes de segurança participaram da operação contra o grupo em novembro do ano passado, em cooperação com o serviço de inteligência nacional.
A Alemanha desmantelou várias células de extrema-direita nos últimos anos, incluindo representações do movimento extremista alemão Reichsbürger (Cidadãos do Reich), que rejeita a legitimidade da moderna república alemã.
De acordo com o último relatório dos serviços de inteligência da Alemanha, o número de extremistas de direita do país considerados potencialmente violentos aumentou para 14,5 mil no ano passado.
