SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Bolsa de Valores brasileira opera em forte alta nesta quinta-feira (22), estendendo o movimento da véspera e ainda embalada pelas discussões envolvendo a possível aquisição da Groenlândia pelos Estados Unidos.

O presidente Donald Trump afirmou estar próximo de um acordo sobre a ilha ártica e suspendeu a ameaça de aplicar tarifas sobre oito países europeus. Analistas também repercutem dados norte-americanos de inflação e de atividade econômica.

Às 12h54, o Ibovespa avançava 3,05%, aos 177.084 pontos, a caminho de renovar o recorde histórico pelo quarto dia consecutivo. Na máxima da sessão até aqui, chegou a 177.741 pontos. Na quarta-feira, o principal índice do mercado acionário do país superou pela primeira vez as marcas de 167 mil, 168 mil, 169 mil, 170 mil e 171 mil pontos.

Já o dólar recuava 0,38%, cotado a R$ 5,299.

Trump afirmou, na rede social Truth Social, ter formado “uma estrutura de acordo futuro em relação à Groenlândia e, na verdade, a toda a região do Ártico”.

“Com base nesse entendimento, não vou impor as tarifas que estavam programadas para entrar em vigor em 1º de fevereiro.”

O movimento foi lido como um recuo por parte do presidente republicano após reunião com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte. Mais cedo, na quarta-feira, Trump já havia descartado o uso da força para tomar a ilha, de posse dinamarquesa, em discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

O comportamento de avanços e recuos de Trump, já conhecido dos mercados desde o episódio do tarifaço no ano passado, tem incentivado a diversificação de carteiras para fora dos Estados Unidos. Investidores buscam reduzir a exposição à volatilidade dos mercados norte-americanos, movimento do qual os emergentes têm se beneficiado.

“Os investidores passam a revisar risco, reduzir a exposição a mercados supervalorizados e buscar alternativas onde o preço compensa o risco”, afirma Adriana Ricci, fundadora da SHS Investimentos. “O dinheiro global não sai do sistema. Ele muda de endereço.”

Na avaliação de especialistas, o Brasil se destaca por características próprias, como o elevado diferencial de juros — a Selic está em 15% ao ano desde junho passado — e a forte exposição da Bolsa a commodities, como petróleo e minério de ferro. As companhias listadas também seguem com preços atrativos: mesmo com os sucessivos recordes do Ibovespa, o índice ainda opera em múltiplos abaixo da média histórica.

“O alívio nas tensões geopolíticas incentiva a entrada do estrangeiro na Bolsa. Já imaginávamos que isso iria ocorrer em algum momento, já que a capitalização do Ibovespa é pequena. Qualquer fluxo de capital novo faz efeito, especialmente em um momento de poucas vendas”, diz Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos.

“Vemos esse movimento se estendendo até abril e, depois, quando as eleições começarem a entrar no preço dos ativos, esperamos mais volatilidade.”

A entrada de recursos estrangeiros também impulsiona o câmbio, já que os investidores precisam converter dólares em reais para aplicar no mercado local.

“O modelo sugere que o dólar deverá cair em direção a R$ 5,25, atual linha objetivo de queda. Assim, somente compras de curto prazo são recomendadas”, escreveu o diretor da consultoria Wagner Investimentos, José Faria Júnior, em relatório enviado a clientes.

O recuo de Trump em relação à Groenlândia também estimula investimentos em ativos mais arriscados, o que, somado à estratégia de rotação para fora dos Estados Unidos, favorece a Bolsa brasileira como mercado emergente.

Os índices acionários na Europa também avançam nesta quinta-feira. O alemão DAX e o francês CAC 40 registram ganhos superiores a 1%. O dólar apresenta queda frente a divisas emergentes, como o rand sul-africano, o peso chileno e o peso mexicano.

Os agentes do mercado ainda repercutem dados do PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados Unidos no terceiro trimestre de 2025. A economia norte-americana cresceu a uma taxa anualizada revisada de 4,4%, o ritmo mais rápido desde 2023.

Já os gastos dos consumidores, representados pelo índice PCE e responsáveis por cerca de dois terços da atividade econômica dos EUA, avançaram a uma taxa de 3,5% no terceiro trimestre. O PCE é a métrica preferida do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) para balizar as decisões de política monetária.

O Fed e o BC (Banco Central) brasileiro decidem sobre juros na próxima semana, entre terça e quarta-feira. A expectativa é que ambos mantenham suas taxas de referência inalteradas: os Fed Funds na faixa entre 3,5% e 3,75% e a Selic em 15%.

A decisão do Parlamento Europeu tomada nesta quarta-feira (21) coloca mais urgência na estratégia brasileira de avançar com velocidade na validação interna. Essa diretriz foi discutida pelo governo em uma reunião na Casa Civil, na véspera da manobra europeia

Folhapress | 07:00 – 22/01/2026

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