Trump e sua sucursal da ONU em Mar-a-Lago – CartaCapital

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na quinta-feira 15, em um post na rede social Truth, a criação de um invento chamado “Conselho da Paz”, descrito por ele como “o mais grandioso e prestigioso conselho jamais reunido em todos os tempos”.

Apesar da grandiloquência habitual, as informações sobre o projeto ainda são insuficientes, desencontradas e confusas, como costuma acontecer com muitos dos anúncios feitos pela atual presidência americana, na qual postagens escritas com letras maiúsculas e pontos de exclamação passaram a ter primazia sobre os antigos comunicados oficiais.

Descontado o caos e preenchendo as lacunas com informações de bastidor, o que se conclui é que, com esse Conselho, Trump pode estar gestando um aparato alternativo ao Conselho de Segurança ou até mesmo à Assembleia-Geral das Nações Unidas, só que no estilo Mar-a-Lago: apenas para convidados seletos que topem comprar ingressos a 1 bilhão de dólares para se tornarem membros permanentes de um clube que funcionará sob a liderança incontestável de seu dono e criador.

O Brasil é um dos países convidados. A Embaixada em Washington recebeu uma carta, na sexta-feira 16. Nesta segunda 19, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou com o chanceler Mauro Vieira a respeito, sem, no entanto, bater o martelo. O prazo limite para o Brasil dar uma resposta pode ser quinta-feira 22, quando Trump, de acordo com a agência de notícias Bloomberg, espera fazer um pronunciamento grandioso sobre o assunto na Cúpula de Davos, na Suíça. Além do Brasil, também Argentina, Paraguai, França, Turquia, Egito, Jordânia, Canadá, Hungria, Romênia, Chipre, Israel e Rússia também foram convidados.

Olhando a lista dos países, é difícil ver um fio condutor que possa justificar as escolhas dos novos membros. Além disso, ainda é impossível saber se há convidados que não acusaram o recebimento da carta, nem como cada presidente respondeu ao convite, posto que ainda há pouca informação oficial circulando.

O embrião dessa ideia surgiu em outubro de 2025, com um memorando da Casa Branca assinado por Trump e pelos presidentes do Egito, do Qatar e da Turquia – todos envolvidos à época com o acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza. Ainda não se falava oficialmente na formação de um conselho, embora a ideia já circulasse por meio de uma proposta elaborada naquele mesmo mês pelo ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, como noticiado à época por CartaCapital. Trump tinha um plano para o cessar-fogo e Blair, para a reconstrução de Gaza, o que implicava uma ideia de conselho tutelar para os palestinos.

Em novembro, o Conselho de Segurança das Nações Unidas publicou a Resolução 2803/2025, na qual saudou o plano divulgado por Trump para Gaza no mês anterior, e deu “as boas-vindas ao Conselho da Paz” que seria formado para lidar com a questão palestina, como constava no plano de Blair. O apoio da ONU estava circunscrito à ideia de um conselho para Gaza, não para lidar com todas questões do mundo.

Diversos jornais vêm publicando trechos do que seria uma carta fundacional do tal Conselho da Paz, embora o documento em si ainda não tenha emergido publicamente. De acordo com o The New York Times, a missão do conselho é “promover a estabilidade, restaurar uma governança confiável e legal e garantir uma paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos”, além de “desempenhar funções de consolidação da paz em conformidade com o direito internacional”.

Se for verdade, Trump está buscando realmente substituir as estruturas que foram concebidas após a Segunda Guerra Mundial para cumprir essas funções. O sistema ONU, estabelecido a partir de 1945, tem dois problemas fundamentais, é verdade: o primeiro é de representatividade e o segundo, de efetividade.

O formato do Conselho de Segurança, com cinco membros permanentes com poder de veto, não é representativo. Ele não reflete a divisão de poder do mundo atual, para dizer o mínimo. Nesse formato, as decisões custam a sair e, quando saem, nos remetem a um segundo problema: as decisões não são efetivas.

Três exemplos de ineficiência: em 2003, o Conselho de Segurança proibiu os EUA de atacarem o Iraque, mas os americanos atacaram mesmo assim, e com apoio do Reino Unido e à revelia da lei, depuseram o então presidente Saddam Hussein, que acabou morto na forca.

Muito antes disso, em 1978, o mesmo Conselho de Segurança havia criado uma missão internacional de paz para o sul do Líbano. A Unifil tinha duas missões: desmilitarizar a área que vai do Rio Litani até a chamada Linha Azul, fixada em 1949, e impedir que armas e munições chegassem ao Hezbollah, mas falhou em ambas ao longo dos seus 50 anos de existência. Por fim, o mesmo Conselho de Segurança lançou em 2004 uma ambiciosa Missão de Paz para a reconstrução do Haiti, mas, passados 21 anos, o País segue no chão. Enfim, são apenas três exemplos recolhidos ao azar. Há muitos outros nos quais, por ação ou inação, o Conselho de Segurança pecou.

Não foi Trump quem começou a criticar essas instâncias multilaterais. Antes dele, George W. Bush já havia atropelado as convenções, e John Bolton, embaixador dos Estados Unidos na ONU em 2005 e 2006, disse que “o prédio da secretaria da ONU em Nova York tem 38 andares e se perdesse dez não faria a menor diferença”.

É difícil encontrar quem defenda integralmente a ordem internacional estabelecida no pós-Guerra. E não só a extrema direita faz críticas. A esquerda também está cansada de apontar a insuficiência e a falta de representatividade do sistema. Os mais moderados, como o Brasil, vinham defendendo reformas. Os mais brutos, como Trump, preferiram passar por cima para, em seguida, propor a construção de algo novo, aplainado, exclusivo, personalíssimo e caro como o resort do presidente americano em Mar-a-Lago.

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