
O Conselho Nacional do Ministério Público afastou por 60 dias o promotor do Amapá João Paulo Furlan, investigado pela Polícia Federal em uma ação que trata de suposta compra de votos nas eleições municipais de 2020. Ele é irmão do prefeito da capital amapaense, Dr. Furlan (MDB). A medida, assinada pelo corregedor-nacional do CNMP, consta de despacho publicado na última terça-feira 13.
Na decisão, o corregedor Ângelo Fabiano Costa proíbe o acesso do colega ao prédio e aos sistemas do MP estadual. Por ser cautelar, o afastamento ainda deve passar pelo crivo dos demais conselheiros, em data a ser definida. O documento diz que João Paulo teria “conduta incompatível com o exercício do cargo, atos que configuram improbidade administrativa e descumprimento de deveres funcionais”.
A reportagem não conseguiu contato com ele, mas o espaço segue aberto.
As investigações envolvem a primeira campanha de Dr. Furlan à prefeitura de Macapá. O emedebista foi eleito em 2020 com quase 102 mil votos — em 2024, foi reconduzido ao cargo.
Os agentes da PF analisaram mensagens que indicariam compra de votos com cestas básicas e gasolina, trocadas entre o promotor e Gleison Fonseca da Silva, atual ouvidor-geral da prefeitura. No fim de 2020, Gleison foi abordado por policiais federais com 1,2 mil reais em espécie, um celular e um bloco de santinhos do prefeito. A análise do conteúdo do telefone ocorreu meses depois, com aval da Justiça.
Em um dos diálogos, o irmão do emedebista — que se refere a Gleison como “Coló” — afirma que uma mulher ligaria para ele. “Entrega 13 (cestas básicas) para ela, tá, que ela vai pegar contigo. Vou te mandar o número dela”, registra um relatório da PF cujo teor foi revelado pelo jornal Folha de S. Paulo e confirmado pela reportagem.
De acordo com os investigadores, a análise das conversas comprova os “laços de amizade”, “sendo crível inferir que Gleison seria o ‘homem de confiança’ de João para tratar de assuntos referentes a política”. A polícia também aponta o promotor como um dos responsáveis pela articulação da campanha do irmão.
“Verifica-se que João seria um dos responsáveis pela articulação da campanha, enviando mensagens para que Gleison publicasse em suas redes sociais e até mesmo dar algumas respostas para jornalistas que não eram alinhados as ideias de seu irmão. Aparentemente João foi um dos responsáveis financeiros da mesma campanha, pois nos trechos acima expostos infere-se que tenha havido pagamentos ordenados por ele, compra de cestas básicas para distribuição bem como acerto de abastecimento com motoristas para transporte de eleitores”, conclui a PF.
