
O cardeal italiano Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, teria procurado representantes dos Estados Unidos na Santa Sé no final do ano passado para tentar mediar um asilo para o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, na Rússia. É o que revela uma reportagem do jornal norte-americano The Washington Post publicada na sexta-feira 9.
De acordo com o períodico, a conversa ocorreu na véspera de Natal, quando o cardeal convocou Brian Burch, embaixador dos EUA na Santa Sé, para obter detalhes dos planos do país chefiado por Donald Trump na Venezuela. O jornal afirma ter obtido a informação junto a documentos governamentais e entrevistas com quase 20 pessoas, que teriam pedido anonimato por envolver discutir assuntos sensíveis.
O Vaticano confirmou as negociações no período natalino ao Washington Post, mas afirmou ser “decepcionante que partes de uma conversa confidencial tenham sido divulgadas sem refletir com precisão o conteúdo”. O Departamento de Estado americano não comentou, assim como o porta-voz do Kremlin.
Durante a conversa com Burch na Cidade do Vaticano, conforme o relato do jornal estadunidense, Parolin teria perguntado se os EUA realmente buscavam uma mudança de regime e insistido em uma saída pacífica, sinalizando em seguida que concordava com a saída de Maduro do poder. Ele teria dito, então, que a Rússia estava pronta para receber o venezuelano e pedido paciência aos americanos para evitar “instabilidade e derramamento de sangue” no país da América Latina.
Um documento sobre a reunião obtido pelo Washington Post registra que Parolin citou o que descreveu como um rumor: a Venezuela havia se tornado uma “peça fundamental” nas negociações entre Moscou e Kiev, e a Rússia “abriria mão da Venezuela se estivesse satisfeita com a situação na Ucrânia”.
Ainda segundo a reportagem, o cardeal teria dito ainda que Maduro parecia estar disposto a renunciar após as eleições de 2024, nas quais foi declarado vencedor sem apresentar as provas exigidas pela lei venezuelana. Na época, ele teria sido convencido a permanecer no poder por seu ministro do Interior, Diosdado Cabello, por considerar que a renúncia lhe custaria a vida.
O religioso ainda afirmou estar “muito, muito, muito perplexo com a falta de clareza dos planos finais dos EUA na Venezuela”, segundo os documentos, e pediu que Washington desse um prazo para a saída de Maduro e garantias à sua família.
No sábado 3, dias depois do encontro entre Parolin e Burch, o governo Trump invadiu e bombardeou cidades venezuelanas, incluindo Caracas, capturando Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Ambos estão agora em Nova York para serem julgados pela justiça americana por acusações de narcoterrorismo.
